OpenAI recua um passo com Sora, mas prepara-se para dar dois em frente

A startup de inteligência artificial mais vigiada do mundo promete devolver algum controlo aos detentores de direitos de autor sobre personagens utilizadas nas suas ferramentas de vídeo gerado por IA. O movimento, ainda incipiente, parece mais uma contenção de danos do que uma verdadeira cedência, mas já acena com uma partilha de receitas para quem aceitar entrar no jogo.
6 de Outubro, 2025

A OpenAI vai permitir que os detentores de direitos de autor tenham maior controlo sobre o uso das suas personagens na ferramenta de geração de vídeo com inteligência artificial, Sora. A empresa norte-americana, financiada pela Microsoft, anunciou também a intenção de testar um modelo de partilha de receitas com os titulares desses direitos que autorizem a utilização dos seus conteúdos na plataforma.

O anúncio foi feito por Sam Altman, CEO da OpenAI, através de uma publicação no seu blogue pessoal, onde refere que os estúdios e detentores de direitos poderão bloquear a utilização das suas personagens nos vídeos gerados com recurso à tecnologia da empresa.

A decisão surge numa altura em que cresce a pressão sobre as empresas de inteligência artificial para encontrarem um equilíbrio entre inovação e respeito pelos direitos de propriedade intelectual. A polémica em torno da apropriação de conteúdos protegidos por copyright tem vindo a ganhar peso, sobretudo no setor audiovisual, à medida que se torna evidente o potencial das ferramentas generativas para criar conteúdos que mimetizam ou reproduzem elementos protegidos.

A nova funcionalidade da Sora surge poucos dias depois do seu lançamento como aplicação independente nos mercados dos Estados Unidos e Canadá. A app permite gerar vídeos até 10 segundos e partilhá-los em streams de estilo semelhante às redes sociais. A sua rápida adesão por parte dos utilizadores superou as expectativas da empresa, especialmente no que toca à criação de conteúdos para audiências muito específicas ou de nicho.

Com isso, a OpenAI vê-se forçada a encontrar mecanismos de monetização que possam viabilizar economicamente o modelo. A partilha de receitas com detentores de direitos será um desses caminhos, embora Altman reconheça que o processo de implementação envolverá testes e erros.

O executivo afirmou que a partilha de receitas será introduzida inicialmente na Sora, mas com a intenção de expandir o modelo a outros produtos da empresa. Os detalhes concretos sobre como será feita essa compensação financeira, quem ficará responsável pela validação dos conteúdos e como será garantido o cumprimento dos bloqueios definidos pelos detentores de direitos, permanecem por esclarecer.

Enquanto isso, há já grandes estúdios a posicionarem-se fora do alcance da Sora. Segundo fontes citadas pela Reuters, a Disney terá recusado que o seu catálogo de personagens seja utilizado pela aplicação, uma decisão que antecipa o tipo de conflitos que este novo modelo poderá alimentar.

A OpenAI está longe de ser a única empresa a disputar este novo território. Empresas como a Meta, com a sua plataforma Vibes, e a Google, através dos seus próprios projetos de texto-para-vídeo, também estão a apostar fortemente nesta área. A corrida está em marcha, mas não faltam obstáculos legais e éticos pelo caminho.

No fundo, o que está em causa é simples: quem controla a matéria-prima criativa numa era em que a tecnologia consegue replicar, reinterpretar e redistribuir tudo em segundos? A promessa de controlo “mais granular” pode ser apenas uma forma elegante de pedir licença, depois de já ter entrado pela porta.

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