As ações da Oracle caíram 13% numa única sessão, na quinta-feira, arrastando consigo outras tecnológicas e reforçando os receios de que o entusiasmo em torno da inteligência artificial possa estar a criar desequilíbrios financeiros difíceis de sustentar. A reação do mercado surge após a divulgação de resultados trimestrais abaixo do esperado e de um novo aumento significativo nos planos de investimento da empresa.
A Oracle registou receitas trimestrais de 16,06 mil milhões de dólares, abaixo dos 16,21 mil milhões antecipados pelos analistas. O desvio foi suficiente para penalizar o título, apesar de a procura pelos serviços de infraestrutura de IA continuar a crescer e de essa área ser um dos pilares da estratégia de expansão da empresa.
O elemento que mais inquietou os investidores foi a dimensão do esforço financeiro anunciado. A empresa revelou que os gastos planeados irão aumentar em mais 15 mil milhões de dólares face às estimativas anteriores, reforçando a perceção de risco num contexto em que várias grandes tecnológicas estão a investir valores sem precedentes em IA, com retornos ainda incertos no curto prazo.
A Oracle já vinha a ser alvo de especulação desde setembro, quando realizou uma emissão de dívida de 18 mil milhões de dólares, uma das maiores alguma vez registadas no setor tecnológico. Esse financiamento serviu para acelerar a expansão da sua infraestrutura de IA, incluindo um acordo relevante com a OpenAI, que prevê a compra de 300 mil milhões de dólares em capacidade computacional ao longo de cinco anos.
A visibilidade mediática desse acordo foi tal que, na sequência do anúncio, Larry Ellison, presidente e diretor de tecnologia da Oracle, chegou a tornar-se temporariamente a pessoa mais rica do mundo. Em paralelo, a empresa tem vindo a reforçar rapidamente os seus centros de dados para competir com a Amazon, a Google e a Microsoft na disputa por contratos de cloud orientados para cargas de trabalho de IA.
Ainda assim, uma parte significativa do mercado questiona se é necessário recorrer a níveis tão elevados de endividamento para sustentar esta expansão. Segundo estimativas de um analista do Citi, a Oracle poderá captar entre 20 e 30 mil milhões de dólares em dívida por ano nos próximos três anos, a que se somam vários milhares de milhões em empréstimos ligados à construção de novos data centers no Novo México e no Wisconsin.
Estes resultados e a nova previsão de gastos reacenderam o debate sobre se as valorizações das tecnológicas, impulsionadas pela IA, atingiram níveis excessivos. Para alguns observadores do mercado, a reação negativa era expectável, tendo em conta que muitas ações do setor estão avaliadas com pressupostos de crescimento muito exigentes, penalizando qualquer desvio, mesmo que marginal, nas receitas.
Outros analistas, no entanto, consideram que a resposta de Wall Street foi desproporcionada. Há quem sublinhe que a carteira de projetos de IA da Oracle continua a mostrar sinais fortes de procura, refletindo uma dinâmica de mercado favorável para este tipo de infraestrutura. O mercado também está atento aos contratos assinados pela empresa no valor de 385 mil milhões de dólares nos últimos seis meses, atraindo clientes de grande dimensão como a Meta e a Nvidia, e registando um crescimento de receitas de 14%.
O atual pessimismo em torno da IA estará a transformar dados positivos em fatores de risco aos olhos do mercado. Para os decisores tecnológicos e responsáveis de compras, o caso da Oracle ilustra bem o dilema do momento: a IA mantém-se no centro das estratégias de longo prazo, mas o ritmo e a forma como está a ser financiada começam a levantar questões difíceis sobre sustentabilidade financeira e retorno do investimento.







