Os CIO enfrentam nova vaga de complexidade com IA e multicloud

Organizações lidam com falta de visibilidade, adoção descontrolada de inteligência artificial e ambientes distribuídos cada vez mais difíceis de gerir, num contexto que obriga a repensar segurança e operação de infraestruturas.
19 de Março, 2026

A evolução dos ambientes de TI está a colocar novas pressões sobre os responsáveis tecnológicos, numa altura em que a adoção de inteligência artificial, a dispersão das cargas de trabalho e a crescente sofisticação dos ataques obrigam a rever práticas estabelecidas. Uma análise da Infoblox, representada em Portugal pela Exclusive Networks, identifica quatro áreas críticas que estão a redefinir a gestão tecnológica nas organizações.

A falta de visibilidade sobre ativos de rede continua a ser um dos principais entraves à modernização das operações de TI, com bases de dados CMDB frequentemente imprecisas e incompletas. Em muitos casos, estas bases apresentam níveis de precisão entre 20% e 70%, o que limita a fiabilidade da informação sobre a infraestrutura existente. Este problema tem impacto direto na capacidade de implementar automação e inteligência artificial, uma vez que estas dependem de dados consistentes para funcionar de forma eficaz.

Sem essa base sólida, as equipas mantêm-se dependentes de processos manuais e reativos, o que compromete a eficiência operacional. A evolução para modelos automatizados, capazes de atualizar continuamente a informação, surge como um requisito para suportar ambientes mais dinâmicos.

A introdução de agentes de inteligência artificial nas infraestruturas acrescenta uma nova camada de complexidade. Estes sistemas passam a comportar-se como ativos autónomos, com capacidade para gerar tráfego interno e interagir com outros sistemas.

O crescimento da chamada “shadow AI” está a reduzir a visibilidade das organizações sobre o que acontece dentro das suas próprias redes. Ao permitir comunicações laterais que escapam aos mecanismos tradicionais de controlo, esta realidade dificulta a monitorização e aumenta a superfície de risco. Neste contexto, torna-se necessário estabelecer políticas claras de utilização de IA, reforçar a observabilidade da rede e garantir mecanismos de bloqueio para atividades não autorizadas, complementados por avaliações contínuas dos sistemas.

Paralelamente, a adoção de arquiteturas multicloud e edge está a transformar a forma como as infraestruturas são desenhadas e operadas. A ligação direta entre diferentes plataformas cloud, como AWS, Google Cloud e Microsoft Azure, está a criar ambientes mais distribuídos, onde as cargas de trabalho circulam entre fornecedores.

A crescente interligação entre clouds e ambientes edge está a aumentar a complexidade da gestão de rede e a necessidade de controlo rigoroso sobre endereçamento e naming. Serviços como DNS, DHCP e IPAM assumem um papel central para evitar conflitos e garantir coerência operacional. A diversidade de ferramentas e arquiteturas obriga ainda a avaliações constantes das comunicações e dependências entre sistemas.

No domínio da cibersegurança, o cenário também está a mudar de forma estrutural. O aumento de ataques personalizados, muitas vezes suportados por inteligência artificial, está a eliminar a ideia de um ponto de origem comum.

O conceito de “paciente zero” está a perder relevância, exigindo uma transição para modelos de segurança baseados em comportamento e prevenção. As abordagens tradicionais, assentes em assinaturas e indicadores de compromisso, mostram-se menos eficazes perante ameaças que se adaptam a cada organização. A análise aponta ainda para o risco de agentes de IA legítimos serem utilizados como vetores de ataque internos, num modelo semelhante ao uso de ferramentas nativas das próprias infraestruturas.

No mercado português, estes desafios refletem-se na pressão crescente sobre as equipas de TI. A gestão de ambientes mais distribuídos, com menor visibilidade e maior dependência de automação, aumenta a dificuldade em manter controlo e consistência.

A necessidade de simplificar a gestão tecnológica e adaptar as soluções às realidades concretas das organizações surge como um fator crítico para responder a este novo contexto. A evolução tecnológica continua a acelerar, mas a capacidade de governação e controlo torna-se o verdadeiro elemento diferenciador para as empresas.

Opinião