Os dados estão lançados: quais as apostas para 2026?

Em 2026, mais do que tecnologia inteligente, precisaremos de tecnologia mais consciente, governada por critérios que vão além da eficiência e do lucro.
9 de Janeiro, 2026

Falar de Cyber e Tech em 2026 já não é um exercício de futurologia, mas sim, cada vez mais, um exercício de honestidade intelectual. O que se projeta para 2026 não é um salto tecnológico épico, mas antes uma consolidação silenciosa de escolhas feitas nos últimos anos, muitas delas sem verdadeiro debate público. 

A grande ilusão do discurso tecnológico atual é a de que a automação e a Inteligência Artificial serão como um messias de tecnologia, que nos vai salvar. Esta narrativa simplista ignora os erros estruturais que já se manifestam na adoção de IA e cujo problema reside quando, em nome da eficiência, delegamos cada vez mais, as decisões críticas, financeiras, de segurança, e até humanas, a sistemas que poucos compreendem e nem sempre conseguem auditar. 

Segundo análises baseadas no Gartner’s Top Strategic Predictions for 2026 and Beyond, muitas organizações não estão a falhar por falta de tecnologia, mas antes por falta de governação, competências e estrutura para a IA que já usam. Ao mesmo tempo, a promessa de eficiência está a conduzir à erosão de competências humanas: à medida que as empresas confiam mais em IA generativa, são prejudicadas as habilidades críticas de pensamento, avaliação e de composição de problemas – um fenómeno descrito como cognitive offloading. Em vez de potenciar capacidades humanas, a IA pode estar a criar trabalhadores dependentes de decisões automatizadas, precisamente o oposto do que o discurso dominante promete. A falha fundamental não é da tecnologia em si, mas da falta de mecanismos de auditoria, de transparência e de responsabilidade.

Outro ponto crítico levantado para 2026-2027 tem a ver com um aumento de processos legais relacionados com a IA. Apesar das regulações, o ano de 2026 será marcado por uma economia digital baseada naquilo a que podemos chamar de uma vigilância consentida em que os utilizadores continuarão a trocar dados por conveniência. A diferença é que tudo será mais polido, mais legal e mais difícil de contestar. A perda de privacidade não será imposta, será desenhada para parecer uma escolha racional. Um exemplo recente de 2025 aconteceu quando a autoridade italiana de proteção de dados (Garante) multou em 5,6 milhões de euros a empresa por detrás do chatbot de IA Replika, por violação das regras de privacidade. A decisão concluiu que o serviço não tinha uma base legal adequada para processar dados pessoais dos utilizadores; não aplicava mecanismos eficazes de verificação da idade, expondo menores a riscos; e carecia ainda de transparência sobre como os dados eram usados e retidos.

Por fim, diria que em 2026 falaremos muito de resiliência digital, todavia, dependeremos ainda mais de um número reduzido de plataformas, fornecedores cloud e ecossistemas fechados. Esta concentração não é apenas um risco técnico, é sim, um risco político e económico. Quando falha, falha em cascata. Quando é comprometida, compromete tudo o que dela depende, e quase tudo depende. Talvez o maior problema das tendências para 2026 seja a ausência de uma pergunta fundamental: para quem está esta tecnologia a ser otimizada? Não para o utilizador comum, que perde controlo e transparência. Não para as equipas técnicas, pressionadas a “fazer mais com menos”. Em muitos casos, apenas servem para métricas, investidores e modelos de crescimento que ignoram o impacto humano e social das decisões tecnológicas. Em 2026, mais do que tecnologia inteligente, precisaremos de tecnologia mais consciente, governada por critérios que vão além da eficiência e do lucro.

Bruno Castro, Fundador & CEO da VisionWare. Especialista em Cibersegurança e Análise Forense.

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