Paulo Portas vê na IA um teste à sobrevivência da Europa

No Congresso da APDC, a decorrer hoje 6 de abril e amanhã, na LISPOLIS, em Lisboa, Paulo Portas traçou um retrato de um mundo marcado pela concentração de poder tecnológico, pela fragilidade das democracias perante os algoritmos e pela incapacidade europeia de acompanhar o ritmo da inovação.
6 de Maio, 2026

Paulo Portas utilizou a intervenção no Congresso da APDC para desenvolver uma leitura abrangente sobre o impacto da inteligência artificial e da transformação digital na economia, na política internacional e no funcionamento das democracias ocidentais. Ao longo da intervenção, o antigo vice-primeiro-ministro procurou enquadrar o actual ciclo tecnológico como parte de uma mudança estrutural mais profunda, marcada pela deslocação de poder para um número reduzido de empresas tecnológicas e pela crescente dificuldade dos Estados em acompanharem o ritmo da inovação.

A ideia de soberania digital surgiu como um dos primeiros temas centrais da intervenção. Portas considerou que o conceito só pode ser entendido à luz das mudanças do mundo contemporâneo e deixou implícita a ideia de que os Estados perderam parte da capacidade de controlo tradicional sobre a tecnologia. Na sua leitura, a inovação já não é conduzida pelos governos nem evolui ao ritmo das instituições públicas.

Paulo Portas defendeu que a inovação tecnológica passou a avançar mais depressa do que a capacidade de resposta política, regulatória e institucional dos Estados.

Foi precisamente neste enquadramento que introduziu o caso da Anthropic e do sistema Mythos, apresentado como exemplo de uma inovação que, segundo descreveu, revelou capacidades potencialmente superiores às humanas em determinados contextos. Portas destacou sobretudo a reação da empresa perante aquilo que classificou como um risco sistémico emergente.

Segundo explicou, a Anthropic terá alertado diretamente o Governo norte-americano para os riscos associados à tecnologia, limitando simultaneamente a disponibilização do sistema a um conjunto muito reduzido de clientes. O antigo Vice-primeiro-ministro de Portugalvalorizou particularmente esse comportamento por considerar que representa uma inversão pouco habitual no sector tecnológico, onde tradicionalmente a prioridade é acelerar a distribuição e o crescimento de mercado antes da criação de mecanismos de controlo.

Na sua análise, o episódio demonstra que algumas empresas tecnológicas começam a reconhecer que determinadas capacidades de inteligência artificial podem representar vulnerabilidades operacionais e de segurança com impacto transversal na economia.

A preocupação deixou de estar apenas na capacidade de inovação e passou também a centrar-se na possibilidade de essas tecnologias destabilizarem empresas, sistemas financeiros e infraestruturas críticas.

Portas associou esta evolução ao novo equilíbrio de forças dentro da economia norte-americana. Ao longo da intervenção, descreveu uma estrutura económica cada vez mais concentrada em torno de um número reduzido de empresas ligadas à inteligência artificial, semicondutores e plataformas digitais. Segundo afirmou, essas empresas passaram a assumir um peso desproporcionado na valorização bolsista e na capacidade de investimento da economia dos Estados Unidos.

Na sua leitura, esta concentração cria uma relação de dependência mútua entre as grandes tecnológicas, que se financiam e investem entre si, aumentando o risco de contágio caso uma falha tenha impacto estrutural. O problema, sugeriu, não está apenas no crescimento dessas empresas, mas na dimensão sistémica que passaram a assumir.

O antigo governante identificou igualmente uma mudança política relevante no posicionamento dos líderes tecnológicos norte-americanos. Referiu que muitos dos principais responsáveis das grandes plataformas digitais tinham historicamente proximidade ao Partido Democrata, mas que mais recentemente passaram a procurar relações de maior proximidade com a actual administração norte-americana, numa tentativa de garantir maior liberdade regulatória.

A crítica mais profunda da intervenção acabou, contudo, por centrar-se no impacto social e político do modelo digital dominante. Portas argumentou que os algoritmos passaram a moldar grande parte da experiência pública contemporânea, influenciando informação, atenção e comportamento coletivo.

Para Paulo Portas, as plataformas digitais vivem da captura de atenção e tendem a simplificar temas complexos para maximizar envolvimento. O problema, acrescentou, é que a maioria dos desafios económicos, sociais e geopolíticos actuais não admite respostas simples.

Na visão de Paulo Portas, as redes sociais e os algoritmos estão a criar um ambiente onde a simplificação permanente dificulta a distinção entre factos, falsidades e narrativas alternativas.

Paulo Portas considera particularmente perigosa a ideia de “verdade alternativa”, por entender que representa uma erosão da relação entre cidadania, instituições e factos verificáveis. O antigo governante alertou que, num cenário em que os cidadãos deixam de conseguir distinguir informação verdadeira de conteúdos manipulados, aumenta inevitavelmente a probabilidade de erro nas decisões políticas e sociais.

A análise ganhou dimensão geopolítica quando abordou a China e o TikTok. Portas sublinhou que as plataformas digitais chinesas operam sob controlo do Estado e funcionam como instrumentos alinhados com os interesses estratégicos do país. O antigo Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros mostrou-se surpreendido com o facto de uma plataforma chinesa assumir um papel dominante na formação da consciência digital de crianças e jovens no Ocidente, enquanto as plataformas norte-americanas enfrentam fortes restrições no mercado chinês.

Ao passar para a posição da Europa, Paulo Portas traçou um cenário menos otimista. Considerou que a União Europeia continua a ser uma potência económica relevante, mas sem equivalente capacidade geopolítica ou tecnológica. A ausência de grandes plataformas digitais europeias foi apontada como consequência de opções estruturais acumuladas ao longo das últimas décadas.

O antigo governante identificou vários problemas que, na sua leitura, limitam a competitividade europeia. Entre eles destacou o envelhecimento demográfico, a quebra de produtividade, o atraso no investimento em investigação e desenvolvimento e a dependência energética externa.

Para Paulo Portas, o investimento em investigação e desenvolvimento tornou-se o principal factor diferenciador da economia do futuro, área em que considera que a Europa perdeu terreno face aos Estados Unidos e à China.

A energia surgiu igualmente como uma preocupação estratégica. Portas defendeu que a Europa terá de reconsiderar o papel da energia nuclear como forma de reduzir dependências externas e garantir maior estabilidade energética, num contexto internacional cada vez mais volátil.

A crítica à excessiva produção regulatória europeia encerrou a intervenção. Embora reconheça a necessidade de regras, Portas considerou que a União Europeia desenvolveu uma tendência para responder aos problemas através de sucessivos regulamentos, correndo o risco de afastar investimento e inovação.

Ainda assim, rejeitou igualmente um modelo de ausência total de regulação. Na sua visão, o equilíbrio terá de surgir entre capacidade de inovação, proteção institucional e segurança económica.

A conclusão deixada no Congresso da APDC foi a de que o actual ciclo tecnológico deixou de ser apenas uma questão empresarial ou tecnológica e passou a representar um problema de poder económico, influência política e estabilidade democrática.

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