Durante anos, os responsáveis pelas compras tecnológicas basearam as suas matrizes de decisão numa métrica simples e linear: a velocidade bruta. O mercado habituou-se a encarar os pacotes de 500 Mbps ou 1 Gbps como garantias absolutas de eficiência. No entanto, os dados recolhidos num estudo de âmbito nacional realizado pela Netsonda para a DE-CIX revelam uma realidade substancialmente diferente. A maioria dos utilizadores nacionais associa velocidade a qualidade, mas quase um em cada cinco sofre atrasos semanais na ligação. Mesmo nos escalões de velocidade igual ou superior a 500 Mbps, as falhas mantêm-se constantes, afetando 23% dos utilizadores com uma cadência mínima semanal.
Este cenário demonstra que a massificação da fibra ótica resolveu o problema do débito, mas abriu a porta a uma crise de qualidade na experiência de utilização. Ivo Ivanov, CEO da DE-CIX, que dá gosto ouvir falar do potencial do nosso país, aponta que Portugal resolveu, em grande parte, o desafio da velocidade, pelo que o próximo desafio reside na qualidade da experiência. O executivo clarifica que, na era da Inteligência Artificial, os consumidores esperam cada vez mais que os serviços digitais respondam de forma instantânea e fiável, quer estejam a participar numa videochamada, a efetuar um pagamento online, a transmitir conteúdos por streaming ou a aceder a aplicações na nuvem. Ivanov adverte que, nesses momentos, a estabilidade importa mais do que a largura de banda bruta.
Os congestionamentos reportados concentram-se precisamente nas aplicações mais críticas para o quotidiano corporativo e operacional. Quando confrontados com a necessidade de atualizar os serviços, 53% dos inquiridos prioriza a obtenção de uma ligação mais estável e 51% procura o suporte a múltiplos dispositivos em simultâneo. O download mais rápido surge apenas numa terceira posição, com 42%. O fosso entre o desempenho contratado e a experiência real é evidente, já que apenas um quarto dos utilizadores considera que a qualidade recebida corresponde integralmente ao valor financeiro despendido.
A persistência de bloqueios e microcortes prende-se com uma componente estrutural frequentemente ignorada nas auditorias de TI: o percurso que os dados efetuam. Quase metade dos utilizadores assume total desconhecimento sobre o impacto do encaminhamento no desempenho final. Ivanov, entre uma demonstração de bom gosto, ao falar dos nossos vinhos, e de quanto é fantástico olhar o mar em Portugal, sublinha que, durante anos, o desempenho da Internet tem sido discutido principalmente em termos de velocidade, mas os consumidores avaliam cada vez mais a sua ligação com base no funcionamento fluido, consistente e sem interrupções dos serviços. À medida que as experiências digitais se tornam mais em tempo real, o gestor realça que fatores como a latência, a eficiência do encaminhamento (routing) e a interligação de redes se tornam cruciais.
A transferência de informação não depende exclusivamente da largura da conduta de dados, mas sim da eficácia da interligação das redes. Numa conversa com a imprensa, o CEO detalhou que existem diferenças fundamentais entre o tráfego de conteúdos sob procura (on-demand) e as transmissões em direto via IP. No primeiro caso, redes como as da Netflix ou da Amazon conseguem otimizar a performance recorrendo a servidores locais e memórias intermédias (caches). Contudo, Ivanov recorda que este modelo falha quando aplicado ao streaming em direto, onde a interligação direta entre redes se torna obrigatória por ser impossível armazenar o sinal previamente. Para ilustrar o risco comercial e reputacional destas falhas de infraestrutura, o líder da DE-CIX evocou o caso recente do combate de Mike Tyson transmitido pela Netflix, onde a plataforma, por estar estruturada essencialmente em caches e não em redes preparadas para IP em direto, sofreu uma quebra total de sinal de 60 segundos, resultando em processos judiciais de patrocinadores que exigem milhões de dólares.
Essa necessidade de proximidade geográfica tem transformado o modelo de expansão das infraestruturas de dados. O mercado regista uma transição de grandes polos globais centralizados para redes de densidade regional, num movimento global onde o crescimento do volume de dados passou a ser estrutural e contínuo. Para responder a este fluxo, a adoção de tecnologias de transmissão de 400 Gbps expandiu-se significativamente, acompanhada pelo início da operação das primeiras portas de 800 Gbps. Esta evolução visa aproximar os servidores dos utilizadores finais, mitigando os limites físicos impostos pela distância. “No final do dia tudo se resume à física: se um sinal é produzido em Houston ou Nova Iorque, tenho de viajar, e cada milissegundo de latência ganho com a proximidade equivale a eliminar cerca de 80 quilómetros de distância”, ironiza, Ivanov.
A Ibéria
O posicionamento de Portugal neste ecossistema global ganhou uma nova escala com a integração formal no mercado da Península Ibérica. Madrid, Lisboa e Barcelona deixaram de operar como mercados isolados e funcionam atualmente como um ecossistema digital interligado. Este triângulo ibérico agrega mais de uma centena de centros de dados, 35 sistemas de cabos submarinos e 13 nós de troca de tráfego de Internet, ligando mais de 340 redes de forma conjunta. A plataforma de Lisboa assume-se como o maior nó de troca de tráfego em Portugal por número de redes, registando um crescimento homólogo de 122% na capacidade de clientes conectados.
Esta malha densa de conexões terrestres e submarinas liga os pontos de amarração de Sines e Bilbau diretamente ao centro da Europa. O desenvolvimento desta infraestrutura assume um papel estratégico numa fase em que o setor dos centros de dados em Portugal projeta uma contribuição robusta para a economia nacional. A aceleração da procura é impulsionada pelos investimentos em soluções de nuvem soberana e, de forma categórica, pelas exigências computacionais da Inteligência Artificial.
A introdução de modelos de inferência de IA em tempo real alterou profundamente os requisitos de conectividade, exigindo respostas instantâneas que as arquiteturas tradicionais de rede não conseguem assegurar. O mercado começa a registar o surgimento de fornecedores de agentes de Inteligência Artificial como um serviço, focados na otimização de processos corporativos padronizados. Para gerir a complexidade destas operações, as plataformas de interligação disponibilizam tecnologias capazes de agregar múltiplos agentes numa única comunidade privada virtual. Esta abordagem reduz os custos de conectividade e mitiga a complexidade técnica, elevando os índices de segurança e preservação da privacidade dos dados empresariais.
No campo do treino de modelos de Inteligência Artificial, as restrições físicas dos centros de dados individuais representavam um obstáculo à expansão de recursos. Através de tecnologias de agregação de redes com latência inferior a cinco milissegundos, torna-se exequível unificar a capacidade de processamento gráfico de diferentes infraestruturas situadas in localizações geográficas distintas, como Sines e Lisboa, num ambiente de treino único e coeso. Esta solução técnica viabiliza o aproveitamento de instalações de menor dimensão já existentes, otimizando os investimentos realizados e contornando a necessidade exclusiva de megacentros de dados concentrados. Para os decisores de compras, a estabilidade e a arquitetura de interligação deixaram de ser meras especificações técnicas para se tornarem o verdadeiro alicerce da resiliência operacional.







