Samuel Carvalho, CEO da TelCables Europe

Portugal já é a porta digital do Atlântico

"Estamos a caminhar para um verdadeiro bloco digital entre África e Europa. Hoje, os grandes fornecedores de cloud e IA — como a Google, Amazon e Meta — já olham para o Norte de África como parte da sua estratégia europeia."
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Em entrevista ao Digital Inside, Samuel Carvalho, CEO da TelCables Europe, explica por que razão Portugal se tornou um ponto de interconexão essencial entre continentes, o papel da Angola Cables no reforço das infraestruturas digitais globais e os desafios da sustentabilidade no setor das telecomunicações.

O grupo Angola Cables é hoje reconhecido como um dos operadores mais interligados de África. Qual tem sido a estratégia por detrás deste crescimento tão expressivo?

A nossa estratégia baseia-se em trabalhar com os nossos próprios ativos. A Angola Cables tem atualmente cerca de 33 mil quilómetros de cabos submarinos próprios e, através de parcerias e capacidade em outros sistemas internacionais, opera mais de 80 mil quilómetros de cabos submarinos no total. Utilizamos esta rede no Atlântico para promover o tráfego de dados entre continentes, nomeadamente entre as Américas, África, Europa e Ásia.

O crescimento tem sido sustentado através de colaborações com outros operadores, que nos permitem entrar em novos mercados e partilhar infraestruturas. Hoje, o foco está em participar em data centers e cabos submarinos com capacidade partilhada, o que nos dá flexibilidade e escala.

Qual é o papel da TelCables Europe dentro desta estratégia global?

A TelCables Europe é, na prática, a porta digital do Atlântico. Desde muito cedo, na Angola Cables, trabalhámos hubs atlânticos, como o de Fortaleza, no Brasil, que se tornou o segundo ponto mais interconectado da América Latina. Hoje, controlamos 25% da rota São Paulo–Estados Unidos e 65% da rota Fortaleza –Estados Unidos.

O objetivo é replicar em Lisboa o sucesso de Fortaleza. A proximidade entre o Brasil e a Europa torna Portugal o local natural para o próximo grande hub transatlântico, e essa visão está já em curso com o crescimento dos cabos e data centers no país.

Como é que Portugal e a Península Ibérica se enquadram nessa visão de conectividade global?

Portugal voltou a ter um papel central nas rotas internacionais, tal como aconteceu nas antigas rotas marítimas. Hoje, essas “rotas do astrolábio” são digitais. As ligações de baixa latência seguem um eixo Sul-Sul que conecta Europa, Brasil, Índia e África.

Atualmente, chegam à costa portuguesa cerca de 20 cabos submarinos de grande capacidade, e até 2026 deverão existir 115 pontos de aterragem em cinco localizações distintas. Além disso, grandes empresas tecnológicas estão a investir diretamente em Portugal, como a Google, que instalou o cabo “Nuvem” nos Açores e prepara o cabo “Sol”, que ligará os Açores a Espanha.

Tudo isto faz com que a Península Ibérica esteja a crescer três vezes mais em capacidade digital do que há poucos anos, consolidando o seu papel como ponto convergente de tráfego entre o Mediterrâneo, África e o Atlântico.

Qual é o papel da Angola Cables neste movimento de crescimento e interligação?

Estamos a caminhar para um verdadeiro bloco digital entre África e Europa. Hoje, os grandes fornecedores de cloud e IA — como a Google, Amazon e Meta — já olham para o Norte de África como parte da sua estratégia europeia.

Os dados em África estão a crescer sete vezes ao ano, e isso está a atrair investimento global. Grandes cabos da Google e do Facebook já contornam a costa angolana até à Europa, e a Angola Cables é vista como um ponto estratégico nesse trajeto.

Recentemente, a NVIDIA identificou Angola como um dos locais prioritários para a instalação do seu projeto Stargate, o que demonstra o reconhecimento internacional do papel do país neste ecossistema.

Estão a integrar inteligência artificial e automação nos vossos serviços. De que forma isso está a acontecer?

A inteligência artificial já é parte central da nossa operação. Usamo-la para otimizar as redes, gerir o tráfego e prever consumos. Também nos ajuda a ajustar preços e antecipar tendências de mercado.

Nos serviços ao cliente, a IA é aplicada em soluções Cloud to Europe e Cloud to Africa, e também em ferramentas para pequenas e médias empresas, como sistemas ERP, alojamento e desenvolvimento de websites.

Na Europa, o mercado procura sobretudo ligações de baixa latência entre data centers e pontos de presença (POPs) — essenciais para o setor financeiro, energético e de telecomunicações. Operamos atualmente POPs em Londres, Lisboa e Marselha, ligados diretamente aos Estados Unidos.

O que falta para que África possa competir em pé de igualdade com outras regiões na economia digital?

Falta consolidar a infraestrutura e garantir acesso local e acessível aos serviços digitais. A Angola Cables já é o operador mais interconectado da CPLP, e temos projetos como o AceleraNet, que oferece formação e apoio técnico a startups e ISPs africanos.

Outro passo importante é permitir o pagamento em moeda local pelos serviços, o que reduz barreiras financeiras e facilita o crescimento do setor. Estamos também a expandir os nossos data centers em África, replicando o modelo de hubs de interconexão que aplicámos no Brasil.

Além disso, criámos rotas alternativas via Angola e África do Sul para contornar interrupções no Mar Vermelho, garantindo ligação contínua entre a Ásia, África e a Europa através de Portugal e do Brasil.

A sustentabilidade energética é hoje uma grande preocupação. Como vê este desafio, especialmente com o aumento do consumo devido à inteligência artificial?

É, de facto, uma preocupação central. O crescimento dos data centers e o uso intensivo de GPUs colocam grande pressão sobre as redes energéticas. Países sem acesso a energias verdes ou sem capacidade hídrica terão dificuldades em acompanhar.

Há exemplos inspiradores, como o projeto de Sines, que utiliza arrefecimento marítimo e é hoje uma referência mundial em eficiência energética.

Mas precisamos de ir além disso: as infraestruturas digitais devem ser parte de um ciclo económico verde, com incentivos ligados à redução da pegada de carbono. Defendo a criação de créditos de carbono tecnológicos e reduções fiscais para data centers e cabos submarinos com certificação verde.

Portugal tem uma oportunidade única de liderar esta agenda, aliando sustentabilidade à expansão digital e reforçando a sua posição como um hub tecnológico europeu de referência.

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