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A criação em Portugal do primeiro Centro Europeu de Excelência da CGI dedicado à inteligência artificial não representa o lançamento de uma operação inteiramente nova. O projeto resulta da transformação gradual do centro de entrega global que a empresa mantém no país e que, ao longo dos últimos 11 anos, tem assumido um papel crescente na rede internacional do grupo.
A evolução da operação portuguesa está integrada num investimento global de cerca de 625 milhões de euros anunciado pela CGI em 2023, destinado a reforçar as suas capacidades na área da inteligência artificial. O centro instalado em Portugal conta atualmente com aproximadamente 700 profissionais e deverá continuar a aumentar a sua dimensão nos próximos anos.
Segundo Gonçalo Lança, Senior Vice President Consulting Delivery da CGI, a escolha de Portugal está relacionada com o percurso já realizado pela empresa no país, com a qualificação das equipas e com a sua participação em iniciativas internacionais. A transformação do centro foi, por isso, apresentada como uma consequência do investimento de longo prazo e não como uma decisão isolada.
O centro português resulta da expansão de uma operação existente e da capacitação progressiva das equipas para desenvolver e aplicar soluções de inteligência artificial.
A disponibilidade de profissionais qualificados, a proximidade às universidades e uma estrutura de custos competitiva são apontadas como fatores que podem reforçar a posição de Portugal na cadeia europeia de desenvolvimento e prestação de serviços tecnológicos.
O país enfrenta, ainda assim, limitações de escala. A criação de grandes empresas de inteligência artificial comparáveis às que surgem nos Estados Unidos ou na China continua a ser considerada difícil. Portugal poderá, porém, desempenhar um papel relevante enquanto centro de formação, desenvolvimento e disponibilização de talento para operações internacionais.
Essa capacidade já se reflete, segundo o responsável, na atração de investimento estrangeiro e na instalação de empresas que procuram beneficiar das competências técnicas existentes e da ligação ao sistema universitário.
A posição europeia na corrida à inteligência artificial foi igualmente analisada durante esta conversa. A Europa mantém uma diferença significativa em relação à velocidade de desenvolvimento e adoção observada nos Estados Unidos e na China. No entanto, a aposta europeia na regulação, segurança e utilização ética da tecnologia poderá funcionar simultaneamente como limitação à rapidez de implementação e como fator de confiança.
A capacidade tecnológica está a avançar mais depressa do que a capacidade das organizações para alterarem processos, culturas de trabalho e modelos de negócio. Neste contexto, a regulação pode criar um período de adaptação que permita às empresas avaliar os riscos e introduzir sistemas de inteligência artificial de forma mais controlada.
A regulação europeia pode atrasar algumas implementações, mas também contribuir para aumentar a confiança das empresas e dos utilizadores na adoção da tecnologia.
Gonçalo Lança considera que a atual transformação poderá ter um impacto organizacional superior ao de ciclos tecnológicos anteriores. A profundidade dessa mudança exige, contudo, que as empresas não avaliem a inteligência artificial apenas como um instrumento de redução de custos.
No curto prazo, a automatização deverá exercer pressão sobre algumas funções repetitivas e atividades mais facilmente convertidas em processos digitais. A médio prazo, a expectativa apresentada é que a criação de novos serviços, produtos e formas de trabalhar possa gerar novas necessidades profissionais e contribuir para uma criação líquida de emprego.
O principal desafio será gerir o período de transição. A requalificação de trabalhadores, a redefinição de funções e a preparação dos recém-licenciados deverão acompanhar a introdução das novas ferramentas. As universidades terão igualmente de adaptar os modelos de formação a um mercado em que algumas tarefas tradicionalmente atribuídas a profissionais em início de carreira poderão ser automatizadas.
Entre os erros mais frequentes das empresas está a concentração exclusiva na redução de custos. Esta abordagem limita o potencial da inteligência artificial para criar serviços, aproximar as organizações dos clientes e desenvolver novas fontes de receita.
Outro problema é a proliferação de pequenas provas de conceito que não chegam à operação. Muitas organizações experimentam aplicações isoladas, mas não constroem a arquitetura tecnológica, os processos e os modelos de governação necessários para as ampliar.
Sem uma estratégia, uma arquitetura adequada e uma avaliação dos custos de operação, as experiências com inteligência artificial dificilmente se transformam em processos empresariais escaláveis.
A passagem para produção exige uma visão completa dos processos, incluindo a integração com os sistemas existentes, a qualidade dos dados, os custos de funcionamento e o benefício concreto para o cliente. Os encargos associados à utilização dos modelos podem tornar-se particularmente relevantes quando uma solução começa a ser utilizada em grande escala.
No centro português da CGI, mais de 60% do trabalho já incorpora ferramentas de inteligência artificial em alguma fase da cadeia de desenvolvimento. Estas soluções são utilizadas para acelerar a programação, produzir documentação, realizar testes, identificar problemas e sugerir formas de resolução.
A tecnologia é também aplicada na análise de grandes volumes de informação, na antecipação de comportamentos e no apoio a decisões operacionais. Num projeto desenvolvido para uma empresa de fertilidade no Reino Unido, a visão computacional — tecnologia que permite aos sistemas analisar imagens — é utilizada para examinar milhões de registos de embriões e apoiar a identificação daqueles que apresentam maior viabilidade.
O sistema reduz o tempo anteriormente exigido aos médicos para analisar as imagens, mas não elimina a intervenção humana. Em áreas sensíveis, como a saúde, a CGI defende a manutenção de mecanismos de controlo, segurança e monitorização, garantindo que a decisão final não fica inteiramente dependente de um modelo.
Nas aplicações de maior risco, a inteligência artificial deve apoiar a decisão humana, e não substituir integralmente a responsabilidade dos profissionais.
A CGI está igualmente a introduzir inteligência artificial no desenvolvimento de software. Num projeto realizado para um banco multinacional neerlandês, uma equipa com mais de 100 profissionais alterou o processo de criação de soluções para integrar estas ferramentas ao longo do ciclo de desenvolvimento.
Depois da estruturação da plataforma e dos dados, foram também introduzidos agentes de inteligência artificial capazes de acompanhar o ciclo de vida das aplicações e propor alterações ou melhorias ao código.
Em Portugal, a empresa está a desenvolver um projeto para uma entidade do setor estatal com um vasto acervo documental. A informação está a ser digitalizada e reunida num repositório centralizado, permitindo consultar processos completos e utilizar agentes especializados para pesquisar milhares ou milhões de documentos.
O objetivo é proporcionar uma visão integrada da informação e permitir que diferentes áreas da organização consultem o acervo através de sistemas adaptados às respetivas necessidades. O projeto evidencia também uma das condições essenciais para a aplicação da inteligência artificial nas empresas: sem informação organizada, acessível e suficientemente fiável, os modelos não conseguem produzir resultados consistentes.

