A pressão sobre as organizações portuguesas voltou a aumentar em junho. Cada entidade enfrentou, em média, 2.639 ciberataques por semana, segundo dados da Check Point Research, um crescimento homólogo de 29%.
Portugal registou uma média de ataques 16% superior à mundial e 32% acima da europeia, confirmando uma exposição particularmente elevada no contexto analisado.
A diferença é relevante não apenas pelo número absoluto de incidentes, mas também pela velocidade da subida. A média mundial cresceu 17% em termos homólogos e a europeia 22%, abaixo dos 29% registados em Portugal.
Em junho, a média mundial atingiu 2.270 ataques semanais por organização, mais 10% do que em maio. A Europa chegou aos 2.003 ataques, enquanto Portugal superou esse valor em 636 ocorrências semanais.
Entre os mercados europeus analisados, a República Checa registou 2.928 ataques semanais por organização, Itália 2.602, Suécia 2.432 e Espanha 2.105. Os números mostram uma pressão distribuída por diferentes economias, sem sinais de concentração num único país ou setor.
A leitura mais relevante para os responsáveis de tecnologia é precisamente essa dispersão. O crescimento do cibercrime não surge associado a uma campanha isolada ou a um único tipo de infraestrutura. A superfície de ataque alargou-se ao mesmo tempo que as organizações aumentaram a dependência de serviços digitais, cloud, identidades digitais e ferramentas de inteligência artificial.
A América Latina permaneceu como a região mais atacada, com 3.501 ataques semanais por organização e uma subida homóloga de 27%. A Ásia Pacífico registou 3.060 ataques, África 3.008, a Europa 2.003 e a América do Norte 1.612.
A Educação continuou a ser o setor mais pressionado a nível mundial, com 4.816 ataques semanais por organização, mais 16% do que em junho de 2025. A Administração Pública registou 2.836 e as Telecomunicações 2.835.
Educação, Administração Pública e Telecomunicações continuam entre os sectores mais expostos, num contexto em que redes complexas, grande número de utilizadores e dependência de serviços digitais ampliam a superfície de ataque.
A expansão da utilização empresarial de inteligência artificial generativa está também a criar um problema adicional de segurança. Em junho, um em cada 26 prompts enviados a partir de redes empresariais apresentou um risco elevado de exposição de informação sensível, o equivalente a 3,9% do total analisado.
O problema não está apenas na utilização das ferramentas, mas na dificuldade em acompanhar essa adoção com políticas de governação e controlo de dados. A atividade considerada de alto risco foi identificada em 85% das organizações que utilizam regularmente plataformas de IA generativa.
Ao mesmo tempo, 27% dos prompts continham informação potencialmente sensível. Em média, cada organização utilizou sete ferramentas diferentes durante o mês e cada utilizador produziu 78 prompts.
A utilização quotidiana de inteligência artificial generativa está a transformar a segurança da informação num problema de comportamento, governação e controlo de dados, e não apenas de tecnologia.
A Saúde apresentou a maior taxa de exposição, com 5,7% dos prompts classificados como de elevado risco. Seguiram-se as Telecomunicações e os Serviços Empresariais, ambos com 5,1%, e as Tecnologias de Informação, com 4,1%.
Entre as organizações afetadas, os dados pessoais surgiram em 80% dos casos. Informação sobre redes e infraestruturas apareceu em 62%, conteúdos jurídicos e regulamentares em 61%, dados financeiros em 60% e registos de colaboradores e recursos humanos em 57%.
Para as empresas, estes números expõem uma dificuldade que tende a crescer à medida que a IA generativa se integra nos processos de trabalho. Uma política de segurança pode controlar aplicações e dispositivos, mas torna-se menos eficaz quando informação sensível é introduzida voluntariamente pelos próprios utilizadores em plataformas externas.
O desafio deixa, por isso, de ser apenas bloquear ameaças. Passa também por perceber que informação está a sair da organização, através de que aplicações e em que contexto.
O ransomware mantém, entretanto, a sua capacidade de adaptação. Os grupos de dupla extorsão publicaram 646 vítimas em junho, mais 33% do que no mesmo mês de 2025.
Os Serviços Empresariais representaram 31% dos casos divulgados, seguindo-se os Bens e Serviços de Consumo, com 16%, e a Indústria Transformadora, com 14%.
A América do Norte concentrou 44% das vítimas divulgadas. A região Ásia Pacífico atingiu 23% e ultrapassou a Europa, que representou 22%. A mudança foi particularmente rápida na Ásia Pacífico, cuja quota mundial passou de 16,8% em abril para 22,6% em junho.
Também o mapa dos grupos mais ativos se alterou. The Gentlemen foi responsável por 17% dos ataques publicados em junho, ultrapassando o Qilin, com 11%. O LockBit recuperou atividade e atingiu 7%, depois de representar 1% no mês anterior.
A subida de 33% das vítimas de ransomware e a rápida alteração entre os grupos mais ativos mostram um ecossistema criminal capaz de se reorganizar e ganhar escala em períodos curtos.
The Gentlemen, criado em meados de 2025, combina um modelo de ransomware como serviço com o recrutamento de afiliados e acesso a dispositivos FortiGate previamente comprometidos. A sua rápida expansão mostra como novos operadores podem ganhar relevância num mercado criminal cada vez mais estruturado e especializado.
O quadro que resulta dos dados de junho é menos o de uma ameaça única e mais o de uma pressão simultânea sobre diferentes partes da infraestrutura tecnológica. Redes, cloud, identidades, postos de trabalho, dados e aplicações de inteligência artificial passaram a fazer parte do mesmo problema de segurança.
Para os decisores tecnológicos, isso torna insuficiente uma abordagem fragmentada, em que cada risco é tratado como um projeto separado. A capacidade de prevenção depende cada vez mais da visibilidade sobre toda a infraestrutura, da gestão contínua da exposição, da segmentação das redes, de cópias de segurança isoladas e testadas e de regras claras para a utilização de ferramentas de inteligência artificial.
A formação dos colaboradores mantém também um papel central, sobretudo nas áreas que trabalham com dados pessoais, financeiros, jurídicos ou de infraestrutura. A tecnologia pode reduzir a probabilidade de um ataque ter sucesso, mas não elimina o risco associado à forma como a informação é utilizada e partilhada.
Os números de junho mostram que a cibersegurança está a tornar-se um problema mais distribuído e mais difícil de separar da operação diária das organizações. Em Portugal, o crescimento acima das médias europeia e mundial reforça a necessidade de tratar a prevenção como parte permanente da gestão tecnológica, e não apenas como resposta a incidentes.







