Em 2015 participei num movimento espontâneo que procurou trazer a Web Summit para Portugal. Fiz parte dessa mobilização inicial e cheguei até a dirigir publicamente uma carta a Paddy Cosgrave, convidando-o a visitar Coimbra. O convite gerou entusiasmo nas redes, chegou aos jornais e mobilizou centenas de pessoas. Mas vale a pena recordá-lo com a frieza que o tempo permite: Paddy nunca respondeu. A comunidade empreendedora local ficou sem sequer um aceno de cortesia.
Mais tarde, em entrevistas, Cosgrave afirmou estar “a pensar fazer algo simultâneo em Porto, Coimbra e Faro”, defendendo que Portugal “é muito mais do que Lisboa”. Palavras fáceis, repetidas pontualmente e que nunca se materializaram. Como bem resume a Euronews, “uma década de apoio público, inovação e alguma controvérsia” marca a presença do evento no país. O país ouviu, sorriu e seguiu em frente. Porque, na verdade, Portugal já é muito mais do que o universo geográfico da Web Summit.
Segundo a Euronews, o contrato renovado em 2018 compromete o Estado e a Câmara de Lisboa com até 11 milhões de euros por ano. Na altura estimava-se que o impacto económico até 2028 poderia rondar 386 milhões, “assumindo 120 mil participantes por edição”. A realidade ficou longe destas projeções: em dez anos, os números oscilaram entre 53 mil visitantes em 2016 e “71 386 em 2025”, valores bem abaixo das previsões oficiais.
Entretanto, o ecossistema português evoluiu. Hoje é maduro, distribuído e muito mais diverso do que a narrativa de um único palco anual. Braga, Aveiro, Coimbra, Guimarães, Porto, Évora e Faro representam conhecimento e tecnologia com impacto diário e real. A Web Summit ajudou a acelerar este caminho e isso deve ser reconhecido. Eu próprio confiei no evento ao ponto de lá levar projetos como a iClio, então uma das apostas centrais da Portugal Ventures.
Mas Portugal não pode continuar a subordinar a sua reputação e política de inovação à volatilidade de uma liderança marcada, como escreve a Euronews, por “dez anos de altos e baixos com algumas polémicas e controvérsia” que afastaram empresas globais. O país que investe recursos significativos merece estabilidade institucional e respeito.
Com o contrato a terminar em 2028, a questão é simples: a Web Summit pode continuar a ter lugar em Portugal, mas não pode continuar a ser o centro da estratégia nacional de inovação, nem permanecer assente num modelo que concentra benefícios numa só cidade e riscos no país inteiro. Se quiser ficar, deve fazê-lo com novas regras: mais transparência, menor dependência financeira, maior distribuição territorial e maior respeito pelo país que a acolhe.
No fundo, Portugal tem aqui uma oportunidade que nenhum outro país conseguiu ainda concretizar: transformar a Web Summit não apenas num evento sediado em Lisboa, mas num verdadeiro palco nacional de inovação, articulado entre cidades, universidades e ecossistemas distintos. A nossa dimensão territorial, longe de ser uma limitação, é precisamente o que permite criar um modelo integrado, coordenado e acessível, único na Europa. Se o país tiver a coragem de redesenhar a sua relação com a Web Summit a partir de 2028, poderá tornar-se o primeiro país do mundo com um modelo nacional de inovação staged, distribuído, coerente e verdadeiramente alinhado com o que já somos: um país pequeno, sim, mas suficientemente inteligente para se tornar maior quando atua como um todo.
Rui Nuno Castro é Diretor da inCoimbra StartUp HUB e Presidente da alphaCoimbra







