Portugal precisa de reforçar a ligação das novas gerações ao mar

No quarto episódio do podcast “Por Mares Navegados”, João Parente, professor de Segurança Marítima no Departamento de Engenharia Marítima da Escola Náutica Infante D. Henrique, analisou os desafios da formação e da atratividade das carreiras ligadas à engenharia marítima, num contexto em que o transporte por mar continua a ser vital para a economia mundial.
25 de Agosto, 2025

O setor marítimo em Portugal atravessa uma contradição. Apesar da relevância estratégica do transporte marítimo, continua a ser difícil captar jovens para carreiras na engenharia de máquinas marítimas. João Parente, professor da Escola Náutica Infante Dom Henrique, defende que a falta de conhecimento sobre estas profissões é um dos principais entraves à sua valorização.

O docente recorda que cerca de 90% das mercadorias, em volume, circulam por via marítima, ainda que o valor económico seja inferior ao transporte aéreo devido ao tipo de carga. No entanto, em Portugal, esta realidade raramente é tema de debate público, ficando o mar mais associado ao lazer, ao turismo e à gastronomia costeira.

Segundo João Parente, esta ausência de consciência coletiva sobre o papel do mar tem consequências diretas na atratividade das profissões marítimas. Mesmo sendo carreiras que oferecem salários acima da média portuguesa, não conseguem competir com o desinteresse das novas gerações. Para o professor, este desfasamento prende-se também com a imagem limitada que a sociedade tem do setor.

No caso da engenharia de máquinas marítimas, as funções vão muito além da propulsão do navio. Um engenheiro é responsável por assegurar a manutenção de sistemas essenciais, como a produção de energia elétrica, o funcionamento de geradores, a produção de água doce a bordo ou a monitorização de equipamentos críticos em manobras portuárias. Falhas nestes sistemas podem comprometer a segurança de toda a operação marítima.

Outro fator destacado pelo professor João Parente é a especificidade prática da profissão. Ao contrário de muitas funções em terra, que se limitam a tarefas administrativas, a engenharia no mar exige contacto direto com a operação. “É uma profissão em que se põe a mão na massa”, sintetiza, sublinhando a componente de decisão imediata e a aplicação direta dos fundamentos da engenharia.

No processo formativo, a Escola Náutica dispõe de equipamentos que procuram aproximar os estudantes da realidade operacional. Entre eles, destaca-se o simulador de máquinas marítimas da Vartsella, adquirido através do programa EEA Grants, num investimento que ascendeu a quase 2 milhões de euros. O sistema recria a casa de máquinas de um navio, permitindo tanto treino individual como trabalho em equipa em ambiente de simulação “full mission”, onde é possível interagir com quadros elétricos, sistemas de propulsão e equipamentos auxiliares.

Para João Parente, esta ferramenta é fundamental para preparar futuros engenheiros, mas não resolve a questão de fundo: Portugal precisa de reforçar a ligação das novas gerações ao mar, sob pena de perder oportunidades num setor onde existe procura global.