Kilian Kaminski

“Portugal reagiu de forma excecional ao recondicionado”

Em conversa com o Digital Inside em Lisboa, Kilian Kaminski explica por que fundou a Refurbed, como funciona o marketplace, o que distingue a empresa num mercado cada vez mais disputado e porque Portugal se tornou um dos seus casos de sucesso na Europa.
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A Refurbed entrou em Portugal há pouco mais de um ano, mas já soma cerca de 25 mil encomendas. O responsável atribui este arranque ao equilíbrio entre preço, qualidade e impacto ambiental. Kaminski, antigo líder do programa de produtos recondicionados da Amazon Alemanha, esteve na Web Summit para falar sobre economia circular.

O que o inspirou a criar a Refurbed?

Acredito que precisamos de consumir de forma mais sustentável. O ciclo de comprar um dispositivo novo todos os anos não faz sentido, nem economicamente, nem ambientalmente. A eletrónica é uma das indústrias com maior impacto ambiental e os resíduos eletrónicos são hoje o fluxo de lixo que mais cresce no mundo. Quisemos criar uma empresa que ajudasse a prolongar a vida útil destes produtos e que tornasse o consumo tecnológico mais responsável.

Sentimos que um smartphone não deve durar apenas dois anos. Deve durar quatro, cinco ou até sete. O nosso objetivo é tornar isso possível ao recondicionar os equipamentos para que funcionem de forma impecável durante muito mais tempo.

Como compara o comportamento de compra em Portugal com o restante mercado?

Entrámos no ano passado. Desde então já recebemos cerca de 25 mil encomendas de clientes portugueses.

Portugal tem crescido muito bem, acima do que esperávamos. O nosso produto tem duas vantagens que, juntas, são pouco comuns: é mais barato e ao mesmo tempo mais sustentável. Normalmente, a sustentabilidade implica pagar mais, mas no nosso caso o cliente poupa até 40 por cento face a um equipamento novo e recebe um produto totalmente funcional e com garantia. Isso ressoa muito bem no mercado português.

Um dado que mostra isso é que um em cada três clientes portugueses volta a comprar um segundo produto no espaço de um ano. É um sinal claro de confiança.

Planeiam expandir além da Europa?

É possível no futuro, mas por agora a Europa é o nosso foco. Ainda há espaço para crescer e até duplicar a nossa presença dentro do continente. A Europa valoriza a sustentabilidade e tem políticas que incentivam a redução de dependência de matérias primas externas. Se recondicionarmos e reciclarmos mais, usamos melhor os recursos que já temos aqui.

O vosso modelo exige muito talento técnico. É fácil encontrá-lo na Europa?

Na verdade, nós próprios não recondicionamos. Somos um marketplace, como um eBay especializado, que liga empresas de recondicionamento a consumidores finais e empresas. Temos cerca de 300 parceiros na Europa, todos especializados em categorias específicas como smartphones, portáteis, tablets ou smartwatches.

Cada parceiro recondiciona entre 500 e 10 000 produtos por semana. O processo envolve mais de 40 etapas: diagnóstico, eliminação segura de dados, substituição de componentes e testes rigorosos. No final, o produto funciona como novo.

O talento que procuramos diretamente é sobretudo para engenharia de software, produto, finanças, vendas e atendimento ao cliente. Já o trabalho técnico é feito pelos nossos parceiros, que têm equipas altamente especializadas.

O mercado do recondicionado está cada vez mais concorrencial. Porque deveriam os consumidores escolher a Refurbed e não outra empresa?

O mercado está a crescer rapidamente e deve duplicar até 2030. Empresas como Amazon e eBay também estão a apostar neste segmento, o que ajuda a aumentar a visibilidade do recondicionado.

A nossa vantagem é a qualidade. Somos muito rigorosos na escolha dos parceiros e definimos critérios de qualidade obrigatórios que todos os produtos têm de cumprir. As inspeções são padronizadas e isso permite garantir ao cliente um nível de fiabilidade muito elevado. Nem todos os marketplaces aplicam critérios tão exigentes.

Além disso, investimos muito em confiança e serviço, desde o apoio ao cliente até às condições de devolução.

O que trouxe a Refurbed à Web Summit?

Tivemos a oportunidade de subir ao palco para falar sobre economia circular e sobre como os consumidores estão a mudar a forma de comprar tecnologia. É um tema de que gosto muito: mostrar que existem alternativas ao produto novo.

A Web Summit é também uma boa oportunidade para conhecer startups, ver novas soluções tecnológicas, reunir com parceiros, investidores e jornalistas. É um evento que junta perfis muito diferentes e isso ajuda-nos a olhar para o negócio de forma completa.

A Refurbed é principalmente um negócio B2C. Vê potencial no segmento empresarial?

Sim. Hoje, 90 por cento das nossas vendas são B2C, mas 10 por cento já são B2B, sobretudo PME. Acredito que esta área vai crescer, até porque cada vez mais empresas querem ser mais sustentáveis e têm metas ESG para cumprir.

A chave é garantir confiança e qualidade. Assim que as empresas percebem que o produto é fiável, a procura aumenta. Mas, mesmo com essa evolução, o B2C continuará a ser o nosso pilar.

Kaminski deixa Lisboa com a mensagem clara de que o recondicionado ganhou maturidade e que Portugal se tornou um dos mercados mais recetivos da Europa. Para a Refurbed, o país é um exemplo de como preço, sustentabilidade e fiabilidade podem caminhar juntos num setor tecnológico cada vez mais atento ao impacto ambiental.

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