Próximo iPhone será mais caro e a culpa é da IA

Apple prepara-se para aumentar os preços dos seus produtos perante a subida acentuada dos custos dos chips de memória. A pressão vem da procura crescente por componentes usados em sistemas de inteligência artificial, que está a reduzir a capacidade disponível para eletrónica de consumo e a obrigar fabricantes de smartphones a rever margens, calendários e preços.
23 de Junho, 2026

A Apple planeia aumentar os preços dos seus produtos devido à escalada dos custos dos chips de memória, segundo Tim Cook numa entrevista ao Wall Street Journal. O ainda presidente executivo da empresa, que deverá entregar a liderança a John Ternus em setembro, não indicou que equipamentos serão afetados nem a dimensão dos aumentos previstos.

A decisão surge num momento particularmente sensível para o mercado de smartphones. A empresa estará a preparar o lançamento do primeiro iPhone dobrável em setembro, em simultâneo com a nova gama iPhone 18. A incerteza sobre os preços chega, por isso, numa fase em que a Apple se prepara para renovar uma das suas linhas de produto mais importantes.

O problema está na memória. A procura por chips de alto desempenho usados em sistemas de inteligência artificial, nomeadamente em infraestruturas suportadas por processadores da Nvidia e de outros fabricantes, está a absorver uma parte crescente da capacidade produtiva. Esses componentes são necessários para equipar centros de dados dedicados a serviços de IA, cuja expansão tem acelerado nos últimos meses.

Essa deslocação de capacidade está a criar um efeito em cadeia sobre a eletrónica de consumo. Com mais produção orientada para centros de dados e IA, há menos margem para responder à procura de memória usada em smartphones e outros dispositivos de grande consumo. O resultado é uma pressão direta sobre os custos dos fabricantes, que começam a transferir parte desse impacto para o preço final.

Tim Cook terá reconhecido que a Apple tentou absorver parte dos aumentos recebidos dos fornecedores, mas que a situação deixou de ser sustentável. A mensagem é relevante porque mostra uma mudança de contexto para uma empresa que, historicamente, tem conseguido gerir a cadeia de abastecimento com grande escala e capacidade negocial. Mesmo assim, a escassez de memória parece estar a reduzir esse espaço de manobra.

O impacto não se limita à Apple. A Omdia prevê que os preços dos smartphones possam subir 20% este ano, atingindo um novo máximo. A mesma análise aponta para a continuidade da escassez de memória, sem sinais imediatos de alívio. A subida dos preços deixa de ser apenas uma decisão comercial de cada fabricante e passa a refletir uma tensão estrutural na cadeia global de semicondutores.

A IDC também reviu em baixa as perspetivas para o setor. Em março, a consultora antecipou a maior contração de sempre no mercado de smartphones, apontando para uma queda de 12,9% nas unidades expedidas face a 2025, para 1,12 mil milhões de equipamentos. A empresa classificou a situação como uma crise sem paralelo recente, ao mesmo tempo que reviu de forma significativa as estimativas anteriores.

Para os fabricantes, o dilema é evidente. A procura por IA está a criar oportunidades substanciais no mercado de centros de dados, mas também está a encarecer componentes essenciais para produtos de consumo massificado. Para os consumidores, a consequência poderá ser mais simples de perceber: telemóveis mais caros e, possivelmente, ciclos de substituição mais longos.

Para a Apple, o desafio será equilibrar inovação, margens e procura num ambiente menos favorável. Se os aumentos se confirmarem, a próxima geração de iPhone poderá chegar ao mercado como símbolo de uma nova fase da indústria tecnológica, em que a fatura da inteligência artificial também começa a ser paga no bolso do consumidor.

Opinião