Ao longo da conversa com João Miguel Mesquita e Elsa Veloso, Pedro Dominguinhos traçou um retrato de um país que começou por olhar para a inteligência artificial como uma tendência distante, mas que hoje já a incorpora em linhas de produção industriais, sistemas de decisão empresarial e processos administrativos do Estado.
“O PRR foi desenhado em 2021, numa altura em que a inteligência artificial generativa ainda não tinha explodido”, recordou. A partir de 2024, explicou, o cenário mudou radicalmente, levando empresas e organismos públicos a integrarem soluções de IA em áreas críticas de operação e produtividade.
Grande parte dos exemplos apresentados surgiu das chamadas agendas mobilizadoras do PRR, onde várias empresas portuguesas começaram a utilizar dados e automação inteligente para otimizar processos.
Pedro Dominguinhos destacou o caso da Miranda & Irmãos, em Águeda, que utiliza sensores distribuídos pelo chão de fábrica para tomar decisões quase em tempo real sobre produção e logística. Outro exemplo veio da Calvelex, no setor têxtil, onde tablets instalados nos postos de trabalho ajudam a reorganizar linhas de produção sempre que existe uma alteração operacional.
Segundo o responsável, estes casos mostram como a IA deixou de ser uma tecnologia reservada às grandes tecnológicas e começou a penetrar em setores industriais tradicionais.
Estado também acelera digitalização
A transformação não está limitada ao setor privado. Pedro Dominguinhos lembrou que a própria administração pública começou a utilizar inteligência artificial em processos de análise documental e gestão de candidaturas.
A aplicação Gov.pt, por exemplo, já incorpora funcionalidades assentes em IA, enquanto a estrutura Recuperar Portugal utiliza automação na análise de candidaturas, sempre com supervisão humana.
O objetivo, defendeu, passa por reduzir burocracia, acelerar decisões e aumentar a eficiência operacional do Estado.
Uma das medidas mais relevantes destacadas no episódio foi a criação de um instrumento financeiro de apoio à inovação e competitividade, lançado no final de 2025, que prevê entre 200 e 300 milhões de euros destinados à adoção de inteligência artificial por pequenas e médias empresas.
O programa deverá apoiar mais de dois mil projetos, abrangendo áreas tão distintas como farmácias, indústria, marketing ou serviços.
Para Pedro Dominguinhos, o impacto não será apenas sentido nas empresas beneficiárias. O crescimento da procura por soluções customizadas poderá impulsionar startups portuguesas e fornecedores tecnológicos nacionais especializados em IA.
“Quanto maior for o ecossistema, mais oportunidades cria para todos os players”, afirmou.
Apesar do entusiasmo em torno da inteligência artificial, o presidente da Comissão de Acompanhamento do PRR alertou para um problema estrutural: a falta de literacia digital.
Ao longo da conversa, o tema surgiu repetidamente como um dos principais obstáculos à competitividade nacional. Pedro Dominguinhos defendeu que Portugal precisa de tratar a literacia em IA como uma verdadeira infraestrutura nacional, envolvendo escolas, universidades, politécnicos, empresas e administração pública.
Nesse contexto, destacou programas como o Upskill, desenvolvido em parceria entre empresas tecnológicas, academia e IEFP, que permitiu reconverter profissionais de áreas como psicologia, design ou enfermagem para funções ligadas às tecnologias de informação.
“O programa pagava-se a ele próprio ao fim de três anos”, sublinhou, referindo o impacto em salários, retenção de talento e receitas fiscais.
Apesar do discurso positivo, o episódio também abriu espaço para críticas à execução prática dos apoios.
Elsa Veloso alertou para atrasos no pagamento às empresas aprovadas em programas ligados à IA, nomeadamente no âmbito do IFICI (Instrumento Financeiro para a Inovação e Competitividade). Muitas organizações já contrataram equipas e iniciaram projetos sem terem recebido os adiantamentos previstos.
Pedro Dominguinhos reconheceu o problema e admitiu existir uma “dessincronia entre o discurso público e a verdadeira execução”. Garantindo, contudo, que tem pressionado o Banco Português de Fomento para acelerar os pagamentos.
“É fundamental que o dinheiro chegue rapidamente às empresas”, afirmou.
Um PRR mais empresarial e mais orientado ao mercado
Outro dos temas fortes da conversa foi a evolução do próprio PRR. Segundo Dominguinhos, o plano sofreu várias adaptações ao longo dos últimos anos devido à pandemia, inflação, crise energética, guerras e falta de mão de obra.
Essas alterações levaram ao reforço das verbas destinadas diretamente às empresas privadas, incluindo áreas como deep tech, defesa e inteligência artificial.
O responsável defendeu ainda que Portugal precisa agora de criar condições para transformar startups em scale-ups globais, reforçando mecanismos de capital de risco, internacionalização e ligação ao mercado.
“Hoje respiram-se ambientes muito mais internacionais em Lisboa, Porto, Braga ou Coimbra”, observou.
No final da conversa, ficou clara uma ideia central: a inteligência artificial deixou de ser apenas uma questão tecnológica e passou a ser vista como uma ferramenta estratégica de competitividade económica.
Para Pedro Dominguinhos, Portugal tem hoje condições para construir um ecossistema de inovação mais robusto, desde que consiga acelerar a execução dos apoios, aumentar competências digitais e manter uma visão consistente de longo prazo.
Pedro Dominguinhos escolheu, “Where The Streets Have No Name”, dos U2, para encerramos o episodio desta semana, justificando a escolha com a mensagem de esperança, união e superação que a canção transmite.

