Renault ganha espaço com tecnologia híbrida de baixo custo

A Renault está a destacar-se no competitivo mercado automóvel europeu ao apostar numa tecnologia de baixo custo para transmissões híbridas, proporcionando-lhe alguma margem de manobra à medida que a indústria enfrenta o desafio crescente da transição para a mobilidade elétrica.
14 de Outubro, 2024

A fabricante francesa Renault adotou uma estratégia que tem ajudado a compensar a pressão sentida pelos fabricantes de veículos, numa altura em que a procura por carros totalmente elétricos ainda não descolou, apesar das rigorosas metas ambientais da União Europeia.

Os veículos híbridos da Renault, que combinam motores a combustão com motores elétricos, têm registado um desempenho surpreendente. Nos primeiros oito meses de 2024, as vendas de modelos híbridos como o Clio e o Captur aumentaram 55% em relação ao mesmo período do ano anterior. Este crescimento está muito acima do aumento médio de 21,1% no mercado da União Europeia para híbridos, de acordo com dados da ACEA (Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis). Durante a primeira metade do ano, o aumento chegou a 60%, tornando a Renault a segunda maior marca em vendas de híbridos na Europa, atrás apenas da Toyota.

Analistas apontam a versatilidade e agilidade da Renault como fatores-chave para o seu sucesso. A empresa, que sofreu perdas históricas em 2020, parece ter encontrado um ponto de equilíbrio ao focar-se nos híbridos, uma opção mais económica e menos poluente do que os veículos tradicionais, mas também menos dispendiosa do que os elétricos. Esta aposta permite à marca reduzir as emissões médias de CO2 e aumentar as vendas a curto prazo, num mercado onde os veículos elétricos enfrentam desafios de aceitação e preço elevado.

O recente sucesso da Renault no segmento dos híbridos deve-se em grande parte à sua tecnologia de transmissão E-Tech. A marca francesa, que possui uma longa tradição na produção de caixas de velocidades, desenvolveu um sistema híbrido simplificado baseado numa tecnologia de “dog clutch”, que conecta e desconecta as engrenagens sem a necessidade de sincronizadores. Esta abordagem reduz o número de componentes, tornando o sistema mais leve e económico do que outras soluções híbridas.

A caixa de velocidades E-Tech pode ser aplicada em diversos modelos da Renault, desde pequenos automóveis urbanos até veículos de maior desempenho, como o coupé Rafale de 300 cavalos. Esta versatilidade confere à Renault uma vantagem competitiva, especialmente em comparação com rivais que ainda se encontram a equilibrar as suas gamas de elétricos e híbridos.

Apesar dos progressos nos híbridos, a Renault enfrenta um mercado automóvel europeu que ainda não abraçou plenamente os veículos elétricos, mesmo com a aproximação da proibição dos motores de combustão interna, prevista para 2035. A necessidade de reduzir as emissões médias para 94 gramas de CO2 por quilómetro a partir de 2025 coloca pressão adicional sobre a marca. Atualmente, os modelos híbridos E-Tech da Renault emitem cerca de 95 gramas por quilómetro, o que já lhe permitiu atingir uma média de 114 gramas no primeiro semestre de 2024, abaixo das emissões de concorrentes como a Ford e a Volkswagen.

No entanto, para cumprir as metas futuras, a Renault precisará que cerca de 20% das suas vendas sejam de veículos elétricos, um objetivo difícil de alcançar enquanto as vendas de elétricos permanecem estagnadas em cerca de 12% do total de vendas da marca na Europa.

A aposta em híbridos oferece à Renault uma estratégia de transição, mas a empresa sabe que não pode depender exclusivamente desta tecnologia a longo prazo. A introdução de novos modelos elétricos, como o Renault 5 e o SUV Renault 4, que serão apresentados no Salão Automóvel de Paris, será crucial para o futuro da marca. O sucesso desses lançamentos poderá determinar a capacidade da Renault de competir com gigantes do setor, como Tesla e Stellantis, que lideram o mercado elétrico.

A Renault, que possui uma capitalização de mercado de 11,6 mil milhões de euros, continua a ser mais pequena e potencialmente mais vulnerável do que concorrentes como a Volkswagen. No entanto, a sua menor dimensão também lhe permite ser mais ágil e reagir rapidamente às mudanças no mercado. A recente saída da aliança com a Nissan e a Mitsubishi e a decisão de adiar a IPO da sua divisão elétrica, Ampere, mostram que a marca está a redefinir a sua estratégia para enfrentar os desafios da mobilidade do futuro.

A Renault está a aproveitar uma oportunidade única no mercado europeu de híbridos, utilizando a sua tecnologia E-Tech para ganhar espaço enquanto o mercado de veículos elétricos não atinge o crescimento esperado. Esta estratégia oferece uma solução intermédia, reduzindo as emissões e mantendo os custos mais baixos para os consumidores. No entanto, o futuro exigirá que a marca acelere o desenvolvimento e a aceitação dos seus veículos elétricos para se manter competitiva e cumprir as regulamentações ambientais rigorosas que se avizinham.

Com informação Reuters

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