Robôs começam a ganhar sentidos

Durante décadas, a robótica viveu da precisão e da repetição. Agora, com sensores microscópicos, inteligência artificial e novas capacidades de perceção, os robôs começam a sair do modelo fechado da fábrica para interagir com ambientes mais complexos. A Bosch quer ocupar esse espaço fornecendo as camadas de sensores, software e inteligência que permitem às máquinas ver, tocar, orientar-se e adaptar-se em tempo real.
24 de Junho, 2026

Durante muito tempo, falar de robôs era falar de máquinas programadas para repetir a mesma tarefa, no mesmo local, com a mesma sequência de movimentos. Eram eficientes, previsíveis e particularmente úteis em ambientes industriais controlados. Mas esse modelo está a mudar. A nova geração de robótica já não depende apenas da programação prévia: começa a incorporar capacidade de perceção, interpretação e adaptação.

A robótica está a entrar numa fase em que as máquinas deixam de apenas executar ordens e passam a ajustar o seu comportamento ao ambiente que as rodeia. Esta evolução é impulsionada por dois fatores que se cruzam. Por um lado, a inteligência artificial permite que os sistemas aprendam com dados, experiências e erros. Por outro, a escassez de mão de obra nas economias desenvolvidas está a acelerar a procura por soluções automatizadas, em particular em setores onde há tarefas repetitivas, perigosas ou fisicamente exigentes.

O envelhecimento da população e a baixa natalidade reduzem a disponibilidade de trabalhadores, ao mesmo tempo que aumentam a necessidade de serviços, nomeadamente nas áreas da saúde, apoio social, logística e indústria. Neste contexto, a automatização deixa de ser apenas uma ferramenta de eficiência e passa a ser também uma resposta à falta de capacidade humana disponível.

No centro desta mudança estão os sensores. Os sensores MEMS, sigla para sistemas microeletromecânicos, funcionam como uma espécie de rede sensorial dos robôs modernos. São dispositivos muito pequenos, com estruturas que podem chegar aos 4 micrómetros, cerca de dez vezes menos do que a pata de uma formiga, mas capazes de medir movimento, orientação, pressão, vibração e outras variáveis em tempo real.

Graças aos sensores MEMS, os robôs conseguem recolher informação contínua sobre o que acontece à sua volta e ajustar os movimentos no momento em que executam uma tarefa. Esta capacidade é particularmente relevante quando se pretende que uma máquina manipule objetos frágeis ou irregulares. Pegar num ovo, segurar um copo de cristal ou evitar que um objeto escorregue são gestos simples para uma pessoa, mas representam um problema complexo para um robô.

Para executar uma tarefa desse tipo, a máquina tem primeiro de identificar o objeto através de visão artificial, reconhecer a sua forma e posicionamento, interpretar a cena e perceber que deve aplicar uma força limitada. Depois, sensores de pressão e unidades de medição inercial ajudam a calcular a força aplicada, a forma como essa força se distribui e se o objeto começa a mover-se ou a escapar. O movimento é então corrigido de forma contínua.

Não se trata de reproduzir a mão humana, mas de replicar alguns dos seus princípios essenciais: sentir, decidir e agir de forma coordenada. A diferença é que, no caso dos robôs, essa sequência depende da combinação entre sensores, algoritmos, software e sistemas mecânicos.

A visão é outro dos pilares desta nova robótica. As câmaras permitem reconhecer objetos, analisar o espaço e interagir com o ambiente. Mas, ao contrário de uma câmara fixa, um robô está em movimento. Para evitar imagens desfocadas ou leituras imprecisas, são usados sensores que estabilizam a visão em tempo real. A isso juntam-se tecnologias como a LiDAR, câmaras 3D e sistemas de mapeamento, que permitem criar representações tridimensionais do espaço, deslocar-se de forma autónoma e manter equilíbrio em superfícies irregulares.

A máquina não aprende apenas a partir de informação abstrata, mas também pela experiência, pela tentativa, pelo erro e pela correção.

A nova geração de robôs aprende a manipular objetos e a adaptar-se a situações variáveis, aproximando a automação de uma lógica mais experimental e menos rígida. Esta mudança já tem aplicação em ambientes industriais e logísticos, onde as condições são mais controladas e previsíveis. A próxima etapa será mais difícil: levar estas capacidades para casas, cidades, hospitais, armazéns abertos ou outros espaços onde o ambiente muda constantemente.

É aqui que a complexidade aumenta. Um robô numa linha de produção encontra padrões estáveis. Um robô num espaço doméstico ou urbano encontra objetos fora do lugar, pessoas em movimento, superfícies irregulares e situações inesperadas. Por isso, a adoção deverá avançar por fases. Primeiro nos ambientes industriais, depois em espaços semiestruturados e, só mais tarde, no quotidiano.

A Bosch está a posicionar-se neste mercado não através da construção de robôs completos, mas fornecendo componentes e plataformas que permitem desenvolver essas máquinas. A aposta passa por sensores, software, inteligência artificial e sistemas abertos, capazes de serem integrados em soluções modulares e escaláveis.

O movimento tem também uma dimensão económica. Segundo estimativas do setor referidas pela empresa, o mercado dos sensores MEMS deverá ultrapassar os 16,5 mil milhões de euros em 2030, sustentado pela procura de sistemas mais inteligentes em veículos, dispositivos eletrónicos, indústria e robótica.

A discussão sobre o impacto no emprego acompanha inevitavelmente esta evolução. Mas o contexto atual torna o debate menos linear. Em muitos setores, o problema não é apenas a eventual substituição de trabalhadores, mas a falta de pessoas disponíveis para determinadas funções. A automação pode, nesses casos, assumir tarefas repetitivas, arriscadas ou fisicamente pesadas, libertando profissionais para atividades onde continuam a ser determinantes a capacidade técnica, a criatividade, o julgamento e a relação humana.

A robótica está a deixar de ser apenas automação programada para se tornar inteligência com presença física. Não significa que os robôs estejam a tornar-se humanos, nem que devam ser vistos como tal. Significa que estão a ganhar novas formas de perceber o mundo, responder a estímulos e executar tarefas com maior autonomia. Para empresas, decisores tecnológicos e setores sob pressão operacional, essa mudança pode redefinir a forma como se pensa produtividade, trabalho e interação entre pessoas e máquinas.

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