São 11 da manhã e o sol entra com força pelas janelas da imponente Alfândega do Porto. Lá dentro, o burburinho não dá sinais de abrandar. Startups de todo o país apresentam-se a investidores de cá e de fora, ideias circulam entre pitchs e cafés, e o ar vibra com uma energia rara em eventos nacionais. Estamos no segundo e último dia da SIM Conference, evento que em apenas dois anos se consolidou como um dos pilares do ecossistema de inovação português. À frente da estratégia da Startup Portugal está João Silva, homem do Norte, natural da Póvoa de Varzim, que nos recebe com o sotaque marcado e a convicção tranquila de quem acredita profundamente no que está a construir.
“Portugal não é só Lisboa”
Esta é, talvez, a frase que melhor resume o espírito da conferência. Quando questionado sobre a escolha do Porto como sede do evento, João Silva é direto: “Lisboa já tem uma grande conferência, a Web Summit. O nosso objetivo aqui é outro. Queremos dar palco aos fundadores, sobretudo aos fundadores portugueses, e mostrar o talento que existe em todo o país — e que por vezes fica à margem do centralismo lisboeta.”
A escolha do local não é inocente. A Alfândega do Porto, edifício histórico com vista para o Douro, representa uma fusão entre tradição e futuro. “O Porto é uma cidade vibrante, com um tecido empreendedor sólido, e esta conferência é uma montra desse potencial. Queremos ligá-lo a capital e investimento real.”
Crescimento sustentado e foco na ligação real
Em apenas um ano, a SIM Conference deu um salto notável: 3.500 participantes, mais de 400 startups, 230 investidores e mais de 100 sessões. O crescimento foi de 80% em número de investidores e 25% em startups — números que impressionam, mas que não deslumbram João Silva.
“O objetivo nunca foi crescer pelo espetáculo. Crescemos porque reforçámos o que importa: a ligação entre startups e investidores. Isso é o coração do evento. Queremos menos palcos e mais mesas de conversa, menos luzes e mais capital real. A economia precisa disso.”
Web Summit como catalisador — mas o trabalho é de fundo
A popularidade do ecossistema de startups português deve muito ao impacto mediático da Web Summit — algo que João Silva reconhece, mas relativiza. “O Web Summit acordou o país para a inovação, sim. Mas o trabalho de base já estava a ser feito. A Startup Portugal foi criada em 2016 com uma missão clara: ligar o setor público e privado, criar uma estratégia nacional de empreendedorismo.”
Desde então, o país já viu nascer oito unicórnios — empresas tecnológicas avaliadas em mais de mil milhões de dólares —, e esse número não surgiu do acaso. “Foi fruto de consistência, visão e de uma rede que se foi consolidando. Temos incubadoras em todos os distritos, temos talento a trabalhar com instituições como o CERN e temos uma geração de fundadores mais preparados e ambiciosos.”
Lisboa, Londres… ou Portugal inteiro?
Ao contrário do que muitos podem pensar, a ambição de João Silva não é ver Lisboa competir com Londres ou Berlim. É ver Portugal como um todo entrar nesse mapa. “Lisboa é importante, claro. Mas temos Braga, com uma força enorme em biotecnologia e deep tech, muito graças ao INL (International Iberian Nanotechnology Laboratory). Temos o Porto, com um ecossistema mais generalista mas dinâmico. A força está na complementaridade.”
E enquanto cidades europeias competem entre si, Portugal aposta em criar sinergias internas. “Londres tem tantos habitantes como o nosso país inteiro. Não vamos competir cidade a cidade. Vamos competir enquanto país ágil, coeso e com talento.”
Talento como ativo estratégico — e desafio estrutural
“Já somos bons produtores de talento. O desafio agora é garantir que ele fica cá.” Esta é, para João Silva, uma das questões mais críticas. A qualidade das universidades e centros de investigação portugueses é reconhecida internacionalmente, e o custo de vida — ainda que a subir — continua abaixo da média europeia. Isso atrai empresas estrangeiras, mas também gera o risco da “fuga de cérebros”.
“Precisamos de criar condições para que os nossos melhores talentos fiquem. Isso passa por incentivos, habitação acessível, mas também por mostrar que aqui há oportunidades reais de crescer, inovar e criar impacto.”
Uma economia a colher os frutos — e a justificar o investimento
A convicção de que o ecossistema startup pode ser um motor económico para o país é mais do que retórica. Há métricas em cima da mesa: segundo a Startup Portugal, este ecossistema já representa cerca de 1% do PIB nacional.
“O PRR foi importante. Os vouchers, o reforço das incubadoras, os programas de apoio ao empreendedorismo. Mas o que estamos a construir vai além dos fundos. Estamos a criar um ecossistema que se quer sustentável, profissional e competitivo.”
A SIM Conference como símbolo — mas não como fim
João Silva fala da SIM Conference como um marco, mas também como um ponto de partida. “Temos outras iniciativas contínuas. O Above and Beyond Hangout, por exemplo, acontece todos os meses, em simultâneo no Porto e em Lisboa. É um encontro entre comunidades, onde partilhamos conhecimento e oportunidades. Já vamos na 40.ª edição.”
Há também as Missions Abroad, que levam startups nacionais a eventos internacionais como o Slush, o Web Summit Rio ou a TechCrunch Disrupt. “Queremos abrir portas ao mundo, mas com estratégia. E isso começa já: nos próximos dias vamos preparar a nossa delegação para o Web Summit de Lisboa. Vamos levar mais de 100 startups, com um programa de preparação que inclui pitch training, afinação de modelos de negócio e uma abordagem tática à conferência.”
Do Porto para o mundo — com sotaque e com ambição
À medida que a entrevista termina, é difícil não notar o orgulho sereno com que João Silva fala da sua terra e do seu país. A visão é clara: Portugal como um país pequeno, sim, mas com ambição grande e um ecossistema capaz de competir com os melhores — desde que saiba trabalhar em rede, investir no talento e manter o foco nas ligações reais.
O sotaque não esconde a origem. A convicção, essa, não deixa margem para dúvidas: o futuro do empreendedorismo em Portugal está a ser construído com os dois pés bem assentes no chão. E esse chão, para João Silva, é de granito.







