Num mundo onde a supremacia não se mede apenas por batalhões ou frotas, mas também pela capacidade de dominar as órbitas terrestres, a GMV – multinacional de origem espanhola com forte implantação no setor aeroespacial – dá mais um passo decisivo para consolidar a sua liderança europeia no desenvolvimento de sistemas de vigilância, comando e controlo espacial.
A mais recente adjudicação, atribuída pela Direção Geral de Aquisições (DAD) do Comando de Apoio Logístico (MALOG) da Força Aérea e do Espaço de Espanha, prevê o fornecimento, integração e manutenção de um simulador avançado de mecânica orbital, destinado ao treino especializado de equipas militares envolvidas em operações espaciais.
Este projeto, embora direcionado para o Exército do Ar e do Espaço espanhol, representa um sinal claro da crescente valorização do espaço como domínio operacional prioritário na Defesa moderna – uma tendência que Portugal dificilmente poderá ignorar se quiser manter a sua relevância estratégica no seio da NATO e da União Europeia.
O sistema agora contratado terá como base o Ecosstm, software comercial da GMV já operacional em centros de vigilância espacial de referência, como o Weltraumlagezentrum (centro alemão de vigilância espacial militar), ou o sistema civil de países como a Grécia. A previsão é que o simulador esteja disponível no final de 2025 e se torne operacional em 2026.
A tecnologia permitirá replicar com precisão cenários críticos no domínio da mecânica orbital — desde manobras de reposicionamento de satélites, prevenção de colisões com lixo espacial ou outros objetos, até à simulação de impactos gravitacionais causados pela Terra, Sol e Lua. Um treino avançado que capacita os militares para enfrentar um ambiente operacional cada vez mais congestionado, competitivo e contestado.
A militarização do espaço já não é apenas uma narrativa futurista. Satélites de comunicação, navegação e observação são hoje ativos sensíveis e vulneráveis, quer a interferências naturais — como tempestades solares ou aproximações de asteróides — quer a ações humanas, acidentais ou hostis. O aumento exponencial das megaconstelações comerciais, associado à proliferação de detritos espaciais, multiplica os riscos de colisão e impõe novos desafios ao controlo do tráfego orbital.
Portugal: à margem ou no centro da órbita estratégica?
Embora a iniciativa parta de Madrid, a lição é clara para Lisboa. A Defesa do futuro passa, inevitavelmente, pela integração de tecnologias que permitam às forças armadas operar com eficácia no espaço. A adoção de simuladores como este poderia representar uma mais-valia para as Forças Armadas Portuguesas, elevando a sua capacidade operacional e alinhando-a com as melhores práticas dos seus parceiros internacionais.
Portugal tem vindo a reforçar o seu compromisso com o setor espacial — visível, por exemplo, na criação da Agência Espacial Portuguesa e na aposta em infraestruturas como o Porto Espacial de Santa Maria. Mas permanece por concretizar uma articulação mais robusta entre a estratégia civil e as necessidades da Defesa Nacional.
O investimento em competências espaciais não é apenas uma questão de prestígio tecnológico, mas de soberania. Quem controla o espaço, controla a informação — e quem domina a informação, controla o campo de batalha, seja ele terrestre, marítimo, aéreo… ou orbital.







