A incorporação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) na gestão empresarial em Portugal está a ganhar consistência, sobretudo ao nível estratégico. Os dados mais recentes do Observatório dos ODS, desenvolvido pela Universidade Católica de Lisboa, indicam que a maioria das empresas já reconhece a importância destes princípios na condução dos negócios.
Cerca de 82% das grandes empresas e 67% das PME consideram hoje fundamental integrar os ODS nas suas estratégias, sinalizando uma mudança estrutural na forma como as organizações encaram a sustentabilidade. Esta evolução tem também reflexos na governação, com mais de 85% das grandes empresas e 62% das PME a incorporarem a cadeia de valor na definição de prioridades.
Ao mesmo tempo, os ODS estão a assumir um papel crescente como ferramenta de apoio à decisão. Entre 2022 e 2025, a sua utilização aumentou 15% nas grandes empresas e 18% nas PME, evidenciando uma transição gradual da teoria para a prática na gestão corporativa.
Apesar destes avanços, a execução no terreno revela fragilidades. Existe uma diferença significativa entre a perceção geral de sustentabilidade e o envolvimento concreto com os ODS dentro das organizações. Nas grandes empresas, embora 94,7% identifiquem motivação dos colaboradores para temas sustentáveis, apenas 51,8% reconhecem esse compromisso quando se trata especificamente dos ODS. Nas PME, este valor desce para 39,7%.
Esta clivagem está, em parte, associada à ausência de mecanismos formais que alinhem comportamentos com objetivos estratégicos. Mais de metade das grandes empresas já liga remuneração ao desempenho em sustentabilidade, mas nas PME cerca de 80,7% ainda não estabelece qualquer relação entre incentivos e metas ambientais ou sociais.
Os dados apontam ainda para uma dependência excessiva de iniciativas individuais, sobretudo nas organizações de menor dimensão. Apenas 17,9% das grandes empresas afirmam ter uma cultura plenamente alinhada com a Agenda 2030, o que evidencia a distância entre a definição estratégica e a sua incorporação no quotidiano operacional.
Esta evolução tem implicações diretas para os responsáveis de tecnologia e de compras. A sustentabilidade deixa de ser um tema periférico e passa a integrar critérios de conformidade e eficiência financeira.
As auditorias de TI tendem a expandir-se para incluir métricas de consumo energético, eficiência de software e gestão do ciclo de vida do hardware, refletindo uma abordagem mais abrangente que vai além da segurança e disponibilidade dos sistemas. A gestão de resíduos eletrónicos e o alinhamento com princípios de economia circular passam também a ser considerados.
Na seleção de fornecedores, o impacto é igualmente relevante. O facto de mais de 85% das grandes empresas já considerarem a cadeia de valor implica que critérios como transparência, práticas ambientais e alinhamento com a Agenda 2030 ganham peso nas decisões de procurement. Fornecedores que não demonstrem compromissos claros nestas áreas arriscam exclusão de concursos.
A componente social dos ODS introduz ainda novas exigências, nomeadamente ao nível da ética no uso de dados e das condições de trabalho associadas aos serviços tecnológicos.
A transformação em curso está também a redefinir o papel das áreas de compras, que evoluem de centros de controlo de custos para funções críticas de conformidade e ética empresarial.
O custo total de aquisição passa a incorporar o impacto ambiental e social, enquanto a performance tecnológica começa a ser avaliada pela eficiência energética e não apenas pela capacidade de processamento. A lógica de substituição por obsolescência dá lugar a modelos orientados para a economia circular, incluindo reutilização e reciclagem.
Por outro lado, o desalinhamento interno identificado pelo estudo levanta desafios na gestão de talento. Num mercado tecnológico competitivo, a falta de ligação entre o trabalho desenvolvido e objetivos concretos de sustentabilidade pode influenciar a retenção de profissionais.
A capacidade de traduzir estratégia em prática — alinhando cultura, incentivos e operações — deverá tornar-se um fator determinante para o sucesso da sustentabilidade empresarial em Portugal.






