Talento em Portugal entra numa nova fase

O mercado de trabalho português está a mudar de forma estrutural. Em 2026, as empresas já não avaliam o valor do talento apenas pela função ou pelo setor, mas pela capacidade de combinar competências técnicas, humanas e estratégicas. Esta é uma das conclusões centrais do Guia Salarial 2026 da Adecco Portugal, que analisa tendências de remuneração e contratação em 14 setores-chave da economia nacional.
9 de Fevereiro, 2026

O estudo surge num contexto marcado pela aceleração da inteligência artificial, pela pressão crescente sobre a produtividade e por um ambiente económico instável. As empresas enfrentam hoje o desafio de atrair e reter profissionais capazes de gerar impacto real no negócio, num cenário em que o conhecimento isolado deixou de ser suficiente.

De acordo com o Guia Salarial 2026, os perfis mais valorizados são polivalentes e conseguem operar na intersecção entre tecnologia, pessoas e resultados. Esta tendência é transversal a áreas como Tecnologias de Informação, Finance, Indústria, Shared Services, Supply Chain ou Sales & Marketing, refletindo uma mudança profunda na forma como o talento é avaliado e recompensado.

Outra alteração relevante face a anos anteriores é o abandono progressivo dos modelos de compensação uniformes. As empresas estão a substituir o modelo de remuneração “igual para todos” por pacotes mais personalizados, ajustados às expectativas, fases de vida e motivações individuais dos colaboradores. O salário continua a ser um fator importante, mas passa a coexistir com outros elementos decisivos, como progressão transparente, flexibilidade, bem-estar e alinhamento com o propósito da organização, sobretudo nos perfis mais qualificados e escassos.

Em termos de remuneração, Lisboa mantém-se como o principal polo salarial, em especial nas funções ligadas à tecnologia, banca, finanças e liderança estratégica. Em Tecnologias de Informação, perfis altamente especializados continuam no topo da escala remuneratória. Funções como Cloud Engineer, Data Engineer ou especialistas em ERP, nomeadamente SAP, podem ultrapassar os 100 mil euros anuais, refletindo a escassez de talento e a elevada exigência técnica associada a estes cargos.

No universo financeiro, as posições de liderança continuam a registar valores elevados, com cargos como Diretor Financeiro a poderem atingir cerca de 140 mil euros anuais em Lisboa e 120 mil euros no Porto. Funções intermédias de natureza estratégica, como Business Controller, mantêm uma valorização consistente, acompanhando o aumento da complexidade da gestão financeira e da tomada de decisão suportada por dados.

Na banca e nos serviços financeiros, as áreas de Compliance, Auditoria Interna e Análise de Crédito permanecem entre as mais valorizadas, impulsionadas pelo reforço da regulação, pelas exigências de controlo e governance e pela escassez de perfis especializados. Em Lisboa, os salários de Compliance Officer situam-se entre 23 mil e 35 mil euros anuais. Já os Internal Auditors, associados a maiores níveis de responsabilidade técnica, podem variar entre 28 mil e 55 mil euros, enquanto os Credit Analysts se posicionam entre 25 mil e 40 mil euros por ano.

O Porto continua, por sua vez, a afirmar-se como um centro relevante para operações internacionais e estruturas de serviços partilhados. Em organizações de maior dimensão, funções de liderança em Shared Service Centres ou Global Business Services podem ultrapassar os 100 mil euros anuais, refletindo o âmbito internacional, a complexidade operacional e o impacto estratégico destas posições. Esta evolução acompanha a transformação destes centros, que deixam de ser apenas estruturas operacionais para assumirem um papel mais estratégico a nível global.

Uma das tendências mais claras identificadas no Guia Salarial 2026 é a valorização do middle management. Os gestores intermédios assumem um papel central na ligação entre estratégia e execução, sobretudo em contextos de transformação digital, industrial e operacional. A procura por estes perfis tem aumentado, acompanhada por uma valorização salarial progressiva, à medida que cresce a complexidade das organizações e a necessidade de estabilidade e controlo de processos.

Apesar desta valorização transversal de perfis estratégicos, alguns setores continuam a enfrentar dificuldades na competitividade salarial, especialmente nas funções de entrada e operacionais. No Retalho, por exemplo, cargos como Store Manager apresentam salários anuais entre 20 mil e 30 mil euros, enquanto posições de maior responsabilidade, como National Retail Manager, podem variar entre 35 mil e 70 mil euros, evidenciando um desfasamento entre exigência operacional e remuneração.

No setor da Hospitality, a dificuldade em atrair e fidelizar talento mantém-se evidente. Funções como Front Office Manager situam-se entre 23 mil e 35 mil euros anuais, enquanto cargos de direção, como Diretor de Food & Beverage, podem aproximar-se dos 75 mil euros, revelando uma forte assimetria interna.

Também na Construção, apesar do dinamismo do setor, os salários de entrada continuam relativamente contidos. Funções técnicas como Orçamentista variam entre 35 mil e 65 mil euros anuais, enquanto cargos como Diretor de Obra podem atingir os 70 mil euros, num contexto de projetos cada vez mais complexos e de escassez de profissionais qualificados.

Em Recursos Humanos, a pressão sente-se sobretudo nas funções técnicas intermédias. Um Payroll Specialist apresenta salários entre 20 mil e 35 mil euros anuais, ao passo que posições de direção, como HR Director, podem ultrapassar os 100 mil euros, reforçando o desafio de tornar estas carreiras mais atrativas e sustentáveis.

Tecnologia aumenta a exigência sobre as pessoas

Contrariamente à perceção de que a tecnologia substitui pessoas, o Guia Salarial 2026 mostra que a digitalização está a aumentar a exigência sobre o talento humano. A capacidade de trabalhar com dados, integrar inteligência artificial nos processos e tomar decisões informadas tornou-se transversal a praticamente todos os setores. No entanto, estas competências técnicas surgem sempre acompanhadas da necessidade de pensamento crítico, comunicação eficaz e liderança.

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