Talvez tenha chegado a altura de acreditar na Europa

Durante demasiado tempo habituámo-nos a olhar para a Europa como um continente condenado a regular tecnologias produzidas noutros lugares. Talvez essa visão tenha sido confortável. Talvez tenha até sido parcialmente verdadeira durante vários anos. Mas começa a deixar de explicar a realidade.
25 de Maio, 2026

Enquanto os responsáveis europeus multiplicavam estratégias, roteiros, grupos de trabalho e declarações de intenções, os gigantes tecnológicos norte-americanos continuavam a aumentar a distância. A Amazon, a Microsoft e a Google investiam centenas de milhares de milhões de dólares em centros de dados, plataformas cloud, inteligência artificial e infraestruturas digitais que se tornaram praticamente inevitáveis para empresas e administrações públicas de todo o mundo.

A Europa parecia estar permanentemente a discutir a corrida enquanto os outros já corriam.

Talvez por isso o conceito de soberania tecnológica tenha adquirido, durante muito tempo, um certo ar de fantasia política. Uma ambição legítima, mas sem músculo industrial suficiente para deixar de ser apenas uma ambição.

Hoje, pela primeira vez em muitos anos, começo a duvidar do meu próprio cepticismo.

Não porque a Europa tenha resolvido os seus problemas. Está longe disso. Continua excessivamente dependente da cloud norte-americana. Continua atrasada em inteligência artificial, semicondutores e plataformas digitais. Continua a perder talento para os Estados Unidos e continua a enfrentar concorrentes que dispõem de recursos financeiros praticamente impossíveis de igualar.

Mas algo mudou.

Sobretudo, mudou a forma como os europeus passaram a encarar a tecnologia.

Durante décadas, a dependência digital foi vista como uma consequência natural da globalização. Se os produtos americanos eram melhores, mais baratos ou mais eficientes, porque haveríamos de procurar alternativas? A lógica parecia inatacável.

O problema é que o mundo mudou mais depressa do que os pressupostos que sustentavam essa lógica.

A invasão da Ucrânia mostrou à Europa os riscos de construir prosperidade sobre dependências estratégicas excessivas. Durante anos existiram avisos sobre a vulnerabilidade energética europeia face à Rússia. Durante anos esses avisos foram ignorados. Quando a realidade se impôs, a fatura revelou-se extraordinariamente elevada.

Hoje, o debate tecnológico começa a seguir uma trajetória semelhante.

Não estou entre aqueles que acreditam que Washington vai acordar amanhã e desligar os serviços digitais utilizados por empresas e governos europeus. Os laços económicos e políticos continuam demasiado profundos para que um cenário dessa natureza seja plausível no curto prazo.

Mas a verdadeira questão nunca foi essa.

A questão é saber se uma região que pretende afirmar-se como potência geopolítica pode aceitar que uma parte substancial da sua economia digital dependa de infraestruturas sujeitas à legislação, às prioridades políticas e às decisões soberanas de outros países.

Para mim, a resposta é cada vez mais evidente.

Não pode. E é precisamente por isso que começam a surgir sinais encorajadores.

Na Alemanha, a criação do ZenDiS e o desenvolvimento do openDesk demonstram que a discussão sobre soberania digital já não está confinada aos gabinetes ministeriais. Está a traduzir-se em produtos concretos, utilizados por organizações reais. O mesmo acontece com iniciativas como o Euro-Office, que procuram construir alternativas europeias integradas para áreas tradicionalmente dominadas por fornecedores norte-americanos.

Nenhum destes projetos ameaça a liderança da Microsoft ou da Google. Quem afirmar o contrário está simplesmente a ignorar a realidade.

Mas talvez este seja precisamente o erro que a Europa cometeu durante demasiado tempo. Medir o sucesso apenas pela capacidade de substituir integralmente os gigantes tecnológicos globais.

A verdadeira questão não é substituir. É reduzir vulnerabilidades. É criar opções.

É garantir que existem alternativas credíveis quando os interesses políticos, económicos ou estratégicos deixam de estar alinhados.

É aqui que exemplos como o da Beyond Vision ganham relevância que ultrapassa largamente o setor da defesa. Quando uma empresa portuguesa desenvolve sistemas autónomos capazes de responder aos requisitos operacionais do Exército Português e de participar em missões da NATO, o que está em causa não é apenas inovação tecnológica. É capacidade industrial. É conhecimento acumulado. É soberania exercida na prática.

Durante demasiado tempo habituámo-nos a olhar para a Europa como um continente condenado a regular tecnologias produzidas noutros lugares. Talvez essa visão tenha sido confortável. Talvez tenha até sido parcialmente verdadeira durante vários anos. Mas começa a deixar de explicar a realidade.

A Europa continua atrasada. Continua dependente. Continua vulnerável.

Ainda assim, pela primeira vez em muito tempo, também começa a demonstrar vontade de corrigir essas fragilidades através de investimento, desenvolvimento tecnológico e construção de capacidades próprias.

Talvez a independência tecnológica europeia continue distante. Talvez algumas das metas atualmente anunciadas nunca venham sequer a ser alcançadas. A história económica está cheia de projetos ambiciosos que falharam. Mas existe uma diferença fundamental entre o momento atual e aquilo que observámos durante grande parte da última década.

Pela primeira vez, não estamos apenas a ouvir discursos sobre soberania tecnológica.

Estamos a começar a ver os primeiros sinais da sua construção. E para alguém que durante anos olhou para este tema com mais dúvidas do que convicções, isso já é motivo suficiente para começar a acreditar.

Opinião