“Tech Prosperity Deal” assinado, com Microsoft em destaque (atualizado)

O governo britânico anunciou um conjunto de investimentos de 31 mil milhões de libras (35 mil milhões de euros) em infraestrutura de inteligência artificial, no âmbito de um acordo de cooperação tecnológica com os Estados Unidos.
18 de Setembro, 2025
Foto: x.com/WhiteHouse

O Reino Unido e os Estados Unidos avançaram com um novo Tech Prosperity Deal, que pretende acelerar o desenvolvimento de tecnologias emergentes como inteligência artificial, computação quântica e nuclear. O pacote soma investimentos privados de cerca de 31 mil milhões de libras, sobretudo direcionados à construção de infraestrutura de computação de alto desempenho.

Entre os compromissos mais relevantes está o da Microsoft, que promete aplicar 22 mil milhões de libras (25 mil milhões de euros), incluindo a construção do maior supercomputador do país em parceria com a Nscale, equipado com mais de 23 mil GPUs avançadas. A Google prepara um novo centro de dados em Hertfordshire no âmbito de um plano de investimento de 5 mil milhões de libras em dois anos, que prevê também a colaboração da DeepMind com os dois governos na aplicação de ferramentas de IA à investigação científica.

CoreWeave anunciou 1,5 mil milhões de libras adicionais para reforçar a capacidade de centros de dados de IA, elevando para 2,5 mil milhões o total investido no Reino Unido no último ano. A empresa trabalhará com a escocesa DataVita para construir um dos maiores centros de dados de IA da Europa. Já a Salesforce prevê 1,4 mil milhões de libras, após um investimento anterior de 4 mil milhões de dólares iniciado em 2023, e a britânica AI Pathfinder ultrapassará a barreira dos mil milhões de libras em novos projetos.

A Nvidia compromete-se a disponibilizar 120 mil GPUs avançadas em território britânico, em paralelo com a Nscale e a OpenAI, que planeiam lançar o projeto “Stargate UK”. A fabricante de chips, que detém entre 70% e 95% da quota global no mercado de processadores de IA, reforça assim a sua posição como fornecedora central da nova infraestrutura.

O acordo inclui ainda a colaboração da associação setorial TechUK com a Nvidia e parceiros de robótica e formação, para apoiar a criação de competências e projetos em inteligência artificial. Outras empresas, como Scale AI, BlackRock, Amazon, Oracle, Anthropic e Cohere, também confirmaram investimentos ou apoio à estratégia britânica.

A visita de Donald Trump a Londres, a 16 de setembro, serviu de palco ao anúncio, acompanhado pelos líderes da Microsoft, Nvidia e OpenAI. O peso destas empresas na definição da estratégia digital britânica levanta questões sobre a influência privada nas políticas públicas.

No caso da OpenAI, a empresa mantém um acordo não vinculativo com o governo britânico que lhe concede um papel significativo na definição do rumo da IA nos serviços públicos. Entre os exemplos já visíveis está a utilização de versões seguras do Copilot Chat pelo Ministério da Justiça Britânico, bem como a adoção do ChatGPT Enterprise em ambiente governamental.

A Microsoft também tem um papel de relevo, com a sua diretora-geral no Reino Unido a presidir ao Industrial Strategy Advisory Council, organismo que aconselha o governo na política industrial. Paralelamente, os seus serviços cloud estão a ser adotados por vários departamentos públicos.

Este cenário tem atraído a atenção da Competition and Markets Authority (CMA), que já apontou a Amazon Web Services e a Microsoft como os dois maiores fornecedores de serviços cloud no país. O regulador recomendou que a Microsoft fosse designada ao abrigo da nova lei de concorrência digital, o que poderia implicar medidas corretivas para reduzir a concentração de mercado. A dúvida que permanece é se a importância estratégica dos investimentos em infraestrutura tecnológica poderá atenuar a ação regulatória.

Com este acordo, o Reino Unido reforça a sua dependência da tecnologia norte-americana, afastando-se de uma estratégia de autonomia digital. Enquanto a União Europeia insiste no reforço da soberania tecnológica, o governo britânico aposta em atrair investimentos externos, mesmo que isso implique maior influência de empresas estrangeiras sobre serviços públicos e setores estratégicos.

Apesar das promessas de criação de emprego e ganhos de produtividade, permanece incerto qual será o benefício líquido para a economia britânica, tendo em conta os elevados custos ambientais da construção e operação de centros de dados e o risco de as principais vantagens ficarem concentradas nas mãos das multinacionais que lideram o processo.

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