Tecnologia quântica entra na fase das decisões práticas

O estado atual da tecnologia quântica é bem mais do que anúncios ou promessas, em Davos, as conversas foram diretas às implicações concretas para a economia, a indústria e a segurança digital, num momento em que esta tecnologia começa a sair do domínio experimental.
27 de Janeiro, 2026

A tecnologia quântica já não é apenas um tema de laboratório ou de investigação académica. Algumas das suas aplicações estão em produção, outras aproximam-se de um ponto de maturidade que obriga empresas e decisores públicos a posicionarem-se desde já.

Ao contrário do computador quântico universal, os sensores quânticos são hoje uma realidade operacional. Estão a ser utilizados em contexto clínico para medições extremamente sensíveis, como a deteção de alterações no coração ou a monitorização da atividade cerebral, beneficiando da capacidade da física quântica para captar sinais muito fracos com elevada precisão.

Este avanço ajuda a perceber um ponto essencial: a adoção da tecnologia quântica não será simultânea nem homogénea. Algumas aplicações específicas, bem delimitadas e com retorno, chegam primeiro ao mercado. Outras exigem ainda anos de desenvolvimento.

No domínio biomédico a verdadeira mudança poderá surgir quando for possível simular moléculas simples com um número relativamente reduzido de qubits estáveis. Mesmo sistemas quânticos modestos podem ter impacto direto na investigação farmacêutica, encurtando ciclos de desenvolvimento e reduzindo custos.

Nas conversa-as que fomos acompanhando em Davos, deu para perceber que o principal obstáculo à computação quântica em larga escala já não é teórico. A questão deixou de ser saber se é possível calcular de forma fiável com base na mecânica quântica. O problema é industrial.

Atualmente, os qubits continuam a ser construídos de forma pouco padronizada, com processos complexos, sensíveis ao ambiente e difíceis de escalar. A transição necessária é comparável à que a indústria eletrónica viveu quando passou de componentes isolados para circuitos integrados. Só com essa mudança será possível produzir sistemas quânticos de forma repetível, fiável e economicamente sustentável.

Esta leitura é particularmente relevante para decisores tecnológicos: o ritmo de adoção dependerá menos de descobertas disruptivas e mais da capacidade de engenharia e fabrico.

Das conversas em Davos emergiu também uma visão pragmática sobre os setores com maior probabilidade de beneficiar numa fase inicial.

A ciência dos materiais surge como uma das áreas mais promissoras, permitindo simular interações químicas complexas que hoje são intratáveis com computadores clássicos. Isto pode traduzir-se em novos materiais industriais, soluções para captura de carbono ou processos produtivos mais eficientes.

No setor financeiro, a computação quântica poderá tornar viável o cálculo de instrumentos complexos, onde múltiplas variáveis e restrições tornam os modelos atuais demasiado lentos ou aproximativos. Já na logística, o valor está menos na criação de novos algoritmos e mais na otimização extrema de problemas que já hoje existem, como planeamento de rotas ou gestão de cadeias de abastecimento globais.

A possibilidade de um novo fosso tecnológico esteve presente em várias intervenções, com a constatação de que apenas uma minoria de países dispõe de estratégias nacionais para tecnologia quântica.

Este desequilíbrio pode ter consequências económicas e geopolíticas relevantes. Quem dominar primeiro estas tecnologias terá vantagens competitivas difíceis de recuperar, tanto ao nível industrial como na segurança da informação.

A cibersegurança foi, aliás, um dos temas mais sensíveis. A capacidade futura de quebrar os sistemas de encriptação atuais coloca um problema que não é teórico, mas temporal. Os dados que hoje estão a ser armazenados poderão ser desencriptados no futuro, o que obriga empresas e entidades públicas a prepararem desde já a transição para algoritmos resistentes a ataques quânticos.

A conclusão comum das conversas foi simples e pouco confortável: adiar decisões é, neste caso, uma decisão de risco. A preparação passa por investimento em investigação, mas também por formação de perfis técnicos diversificados e pela experimentação prática dentro das organizações.

A tecnologia quântica deixou de ser uma curiosidade científica e passou a ser um fator estratégico, com impacto direto na competitividade económica, na soberania digital e na segurança a médio prazo. Para quem decide hoje compras e arquiteturas tecnológicas, ignorar este movimento pode revelar-se um erro difícil de corrigir amanhã.

Opinião