Telegram torna-se terreno instável para o cibercrime organizado

O reforço da moderação e o aumento dos bloqueios estão a alterar o equilíbrio entre risco e retorno para atividades ilícitas em serviços de mensagens, embora o Telegram continue a ser usado por cibercriminosos, a plataforma está a perder atratividade para operações ilegais sustentadas.
15 de Dezembro, 2025

Os serviços de mensagens instantâneas modernos, como o Telegram, WhatsApp ou Signal, continuam a ser utilizados para atividades ilícitas, mas o contexto em que isso acontece está a mudar. Dados recolhidos pela Kaspersky Digital Footprint Intelligence indicam que o Telegram se tornou um ambiente mais hostil para operações clandestinas de longo prazo, apesar de ainda concentrar uma parte relevante da atividade criminosa online.

A análise baseia-se na monitorização de mais de 800 canais de Telegram associados a cibercrime que foram bloqueados entre 2021 e 2024. O estudo conclui que a plataforma mantém um papel central no ecossistema ilegal, mas já não oferece a previsibilidade e estabilidade que os operadores procuravam há alguns anos.

Um dos fatores que explica a popularidade do Telegram no submundo digital é a sua forte aposta na automação. A utilização de bots permite gerir encomendas, aceitar pagamentos em criptomoedas e distribuir conteúdos ilegais — como cartões bancários roubados, dados obtidos por malware, kits de phishing ou serviços de ataques DDoS — a centenas de compradores por dia, com intervenção humana mínima. A isto junta-se o armazenamento de ficheiros sem limite de tamanho ou prazo, que facilita a partilha de grandes volumes de dados roubados sem recurso a infraestruturas externas.

Este modelo favorece negócios de grande escala, baixo custo e reduzida necessidade de confiança entre as partes, como a venda de dados comprometidos ou o alojamento de malware. Já as operações mais sensíveis e de elevado valor, como a comercialização de vulnerabilidades zero day — falhas desconhecidas e ainda não corrigidas — continuam concentradas em fóruns da Dark Web com acesso restrito e sistemas de reputação mais rigorosos.

Apesar destas vantagens operacionais, o cenário está a mudar. Os investigadores da Kaspersky identificaram um aumento significativo da atividade de moderação e bloqueio por parte do Telegram. Desde outubro de 2024, os números mensais de remoções atingiram níveis comparáveis aos picos registados em todo o ano de 2023, mesmo nos períodos menos intensos, com uma aceleração adicional observada em 2025.

Em paralelo, a vida média dos canais ilegais aumentou. A proporção de canais que conseguem manter-se ativos por mais de nove meses mais do que triplicou em 2023 e 2024 face ao período de 2021-2022. Ainda assim, este ganho é contrabalançado pela incerteza criada por bloqueios frequentes e imprevisíveis, que dificultam a consolidação de operações estáveis.

Existem também limitações técnicas que penalizam o uso do Telegram para fins criminosos mais sofisticados. A ausência de encriptação de ponta a ponta por defeito, a impossibilidade de recorrer a servidores próprios devido à arquitetura centralizada da plataforma e o código fechado do lado do servidor reduzem o controlo e a confiança dos utilizadores ilícitos.

Como consequência, algumas comunidades underground já começaram a deslocar as suas atividades principais. Grupos estabelecidos, como o BFRepo, com cerca de 9.000 membros, ou operações de malware como serviço como a Angel Drainer, estão a migrar para outras plataformas ou para mensageiros proprietários, citando interrupções repetidas no Telegram.

Este movimento pode ser o resultado de uma alteração clara no cálculo risco-benefício feito pelos cibercriminosos. Embora os canais consigam hoje sobreviver mais tempo do que no passado, o aumento expressivo dos bloqueios impede que os operadores contem com continuidade a médio e longo prazo, tornando difícil construir serviços considerados fiáveis dentro do próprio ecossistema criminal.

A Kaspersky sublinha a importância do envolvimento ativo dos utilizadores e das organizações. A denúncia de canais e bots claramente ilícitos contribui para acelerar os mecanismos de moderação, enquanto o recurso a múltiplas fontes de inteligência de ameaças — cobrindo a web aberta, profunda e obscura — permite acompanhar atividades clandestinas recentes e as técnicas, táticas e procedimentos usados pelos criminosos.

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