A inteligência artificial está a reconfigurar silenciosamente o mercado de trabalho em tecnologia, começando pelas suas bases. As funções de entrada em TI — historicamente associadas ao help desk, à manutenção de sistemas ou à programação de tarefas simples — estão a ser progressivamente substituídas por ferramentas baseadas em IA. Para os CIO e responsáveis de tecnologia nas empresas portuguesas, isto significa ter de repensar a formação, o recrutamento e até a própria estrutura dos departamentos de TI.
Segundo dados recentes da consultora FourOne Insights, a procura por competências como CSS, HTML e C# caiu entre 56% e 59% desde 2023. As ofertas de emprego para funções de entrada como suporte técnico, desenvolvimento web ou administração de redes sofreram quebras entre 22% e 34%. Este tipo de tarefas é hoje realizado de forma mais eficiente — e a custo mais reduzido — por sistemas automatizados.
Ao mesmo tempo, a transformação não se limita às funções básicas. Os próprios cargos intermédios e seniores estão a ser redefinidos, com novas competências exigidas e responsabilidades mais alargadas, muitas delas diretamente relacionadas com o domínio e supervisão de sistemas de IA. E isto acontece num contexto demográfico desfavorável: a escassez de talento técnico experiente já é sentida no mercado e tende a agravar-se a curto prazo.
Este novo cenário levanta uma questão estrutural para os departamentos de TI: se o nível de entrada está a desaparecer, como se forma a próxima geração de profissionais? A resposta mais repetida pelos especialistas passa por elevar o nível de entrada e acelerar o acesso dos jovens profissionais a tarefas de maior complexidade — um modelo que exige programas de mentoria, formação interna contínua e experiências práticas desde o primeiro dia.
No mercado português, este é um desafio especialmente relevante para as empresas de média dimensão, com departamentos de TI mais compactos e recursos limitados. No entanto, ignorar esta realidade pode significar, a médio prazo, uma perda de capacidade competitiva e um agravamento das lacunas de competências técnicas essenciais.
O impacto da IA está longe de ser apenas operacional. Segundo uma análise da Forrester, a tecnologia introduz uma instabilidade estrutural no trabalho em TI, ao mesmo tempo que obriga a um novo tipo de supervisão humana. A IA pode executar, mas ainda não é capaz de avaliar com rigor ou antecipar as consequências técnicas dos seus próprios resultados. Esta fragilidade técnica coloca pressão sobre os profissionais humanos para que desenvolvam competências de pensamento crítico, validação de resultados e compreensão sistémica dos problemas.
As empresas tecnológicas mais atentas estão a transformar os seus modelos de formação. Várias organizações estão a criar modelos híbridos, onde os recém-chegados trabalham com engenheiros seniores e aprendem em contextos práticos, supervisionando sistemas baseados em IA e participando ativamente na resolução de problemas. Este formato facilita também a transferência de conhecimento institucional, num momento em que muitos quadros seniores se aproximam da reforma.
Simultaneamente, aumenta a procura por profissionais que consigam combinar competências técnicas com entendimento do negócio. Perceber como comunicar insights técnicos a decisores não técnicos, interpretar dados no contexto da organização e antecipar riscos de segurança são hoje capacidades tão importantes como saber programar.
Formação contínua ou obsolescência acelerada
As universidades e centros de formação tradicionais não estão a acompanhar o ritmo da evolução tecnológica. Face a esta limitação, os CIO são aconselhados a implementar programas internos contínuos de atualização de competências, com foco não apenas em IA, mas também em áreas como segurança de dados, análise e visualização de dados e arquitetura cloud.
De acordo com o LinkedIn, as funções mais procuradas no início de carreira incluem engenheiros de IA, programadores UI/UX e engenheiros de dados, com crescimentos de procura que, nalguns casos, ultrapassam os 170% desde 2023. Em contrapartida, as funções tradicionais de entrada estão em retração, confirmando a tendência de desaparecimento dos primeiros degraus na escada da carreira tecnológica.
Para os CIO, torna-se fundamental pensar estrategicamente na qualificação das suas equipas. Entre as recomendações mais citadas estão a criação de planos de formação progressiva, a valorização das soft skills como comunicação e colaboração, e a integração entre tecnologia e empatia, especialmente em ambientes onde a automação convive com equipas humanas.
Num mercado em rápida transformação, a capacidade de adaptação é o novo diferencial competitivo. Como vários especialistas alertam, a liderança proativa é hoje uma exigência — não um luxo. A preparação dos profissionais de TI do futuro começa agora, e depende da capacidade das organizações em repensar a sua estrutura de talentos desde a base até ao topo.







