Se a sofisticação dos campos de batalha é indubitável (e podemos ver isso na invasão russa da Ucrânia), e os confrontos entre os cartéis de droga mexicanos e as forças da ordem daquele país têm um caráter bélico (contando até com veículos blindados), era uma questão de tempo até que os criminosos, que já vêm incorporando treino e táticas militares às suas atividades violentas, optassem pelo uso de drones.
O SBU (Serviço de Segurança da Ucrânia) e a inteligência militar mexicana lançaram, no início deste verão, uma investigação conjunta depois que o Centro Nacional de Inteligência do México alertou que membros dos cartéis de droga mexicanos estavam a alistar-se na Legião Internacional de Defesa Territorial da Ucrânia com a missão de receber formação em drones FPV (First Person View), cujo objetivo final seria o uso desses conhecimentos nas atividades criminosas da organização ao regressarem ao país centro-americano.
Nos conflitos armados modernos, como o já mencionado na Ucrânia ou os que opuseram a Arménia e o Azerbaijão em 2020 e 2023, os drones têm desempenhado um papel significativo, tanto controlados por soldados, como com capacidades de inteligência artificial para serem utilizados como munições «merodeadoras» autónomas, podendo colocar fora de combate veículos blindados de custo muito superior.
O uso de drones é, portanto, uma questão de relação custo/resultado, em que aparelhos de alguns milhares de euros podem destruir equipamentos militares de vários milhões. Além disso, sua produção é rápida e fácil em comparação com tanques ou aviões, e seu manuseio à distância evita expor muito os operadores, além de que, embora seja complicado dominá-los, como em qualquer coisa, o treinamento básico é simples.
É por isso que a guerra dos drones e, especialmente no caso da Ucrânia, tem evoluído com base em medidas e contramedidas, bem como nas tecnologias desenvolvidas e nas táticas de uso.
Um relatório confidencial do Centro Nacional de Inteligência do México alertou em junho sobre a possível infiltração de voluntários mexicanos com ligações ao narcotráfico. A nota, enviada ao SBU, indicava que vários cidadãos mexicanos se tinham juntado à Legião com o objetivo prioritário de adquirir formação na condução destes drones.
Na sequência do alerta, o SBU e a Direção de Inteligência Militar (HUR) abriram uma investigação conjunta centrada nas unidades de língua espanhola da Legião Internacional, entre elas o grupo tático «Ethos», destacado nas frentes de Donetsk e Kharkiv, que se tornou um dos principais focos das investigações.
A «obsessão invulgar» demonstrada por certos voluntários mexicanos e colombianos pelo treino em drones, negligenciando outras matérias de treino militar, foi o que despertou as suspeitas dos investigadores. Entre os casos investigados figura o de um cidadão mexicano que se registou em março de 2024 com uma identidade salvadorenha falsa e opera sob o pseudónimo «Águila-7».
Empresas de segurança sob suspeita
As empresas de segurança privada Grupo ROKA Seguridad e SEGURCOL SAS teriam facilitado o transporte de pessoal e armas para a Ucrânia através de redes logísticas dos narcotraficantes. A primeira, com sede no México, é mencionada em relatórios alfandegários polacos que a relacionam com o contrabando de armas e pessoal através da passagem fronteiriça Medyka-Shehyni. Por sua vez, a SEGURCOL SAS, sediada em Cali e Medellín, teria recrutado antigos comandos do Exército colombiano para países terceiros.
As autoridades ligam ambas as empresas a redes de tráfico de droga que financiam viagens, falsificam documentação e tratam de vistos humanitários.
Os serviços secretos da Ucrânia e do México temem que a experiência adquirida com drones na frente de batalha seja reutilizada pelos cartéis para aperfeiçoar as suas operações armadas na América Latina, seja contra as forças policiais, seja contra outros bandos pelo controlo do território. Drones nas mãos de pessoal treinado para o seu uso e com experiência em combate podem significar uma arma poderosa para os traficantes.
A investigação continua em aberto e, por enquanto, não foram informadas detenções nem a magnitude exata da infiltração. A informação é do jornal especializado Intelligence Online, após um paywall.







