Transformação digital nas PME portuguesas passa (ainda) pelas pessoas

Num cenário onde a tecnologia se torna mais acessível e a inovação avança a um ritmo acelerado, o verdadeiro diferencial competitivo das PME portuguesas já não está nos sistemas que usam, mas sim nas competências das suas equipas e, sobretudo, na visão das suas lideranças.
3 de Novembro, 2025

O custo da tecnologia já não é uma barreira para as PME portuguesas. De acordo com os especialistas convidados no podcast Portugal + Competente, do Digital Inside, os verdadeiros entraves à transformação digital são hoje de natureza humana: falta de competências, de literacia digital e de cultura de inovação.

A diferença de preço e acessibilidade entre o que era possível há 10 anos e o que está disponível hoje é abismal. A computação em cloud custa menos 80% do que em 2010, subscrições de software equivalem a um décimo do que custavam os sistemas feitos à medida há uma década, e o tempo de implementação de soluções como CRM passou de meses para semanas — ou até dias. Ainda assim, Portugal continua abaixo da média europeia na adoção de tecnologias como a inteligência artificial.

Em 2024, apenas 8,6% das empresas portuguesas com mais de 10 trabalhadores usavam IA, contra uma média europeia de 13,5%, revelando um avanço anual muito tímido de 0,7 pontos percentuais.

Este abrandamento é explicado por fatores estruturais e de qualificação. Cerca de 40% dos empregadores portugueses têm apenas o ensino básico, o que contribui para uma menor literacia digital e uma cultura organizacional menos recetiva à mudança.

A formação é escassa, pontual e, muitas vezes, vista como um custo e não como um investimento. Apenas 27% das empresas investem em capacitação tecnológica, sendo este um dos dados mais baixos da Europa.

No entanto, há sinais de que outra realidade é possível. Startups e scale-ups portuguesas mostram um caminho alternativo, apostando em pessoas qualificadas, digitalização integrada e cultura de inovação. Com taxas de crescimento a dois dígitos, são exemplo de como o investimento em competências pode desbloquear valor.

O papel da formação estratégica nas PME

Um dos programas destacados no podcast foi o Voice Leadership, da NOVA SBE, um modelo de formação dirigido às PME que procura exatamente combater esta inércia.

Segundo Sara Almeida, coordenadora do programa, a primeira mudança provocada pela formação é a criação de espaço para reflexão. Muitos líderes de PME chegam com uma perceção limitada do potencial das suas empresas, e só ao confrontarem-se com desafios estruturados e práticos percebem que é possível crescer de forma sustentada.

O programa aposta num modelo em ecossistema, onde formação em sala é complementada com sessões assíncronas, exercícios práticos e mentoria personalizada. A existência de mais de 400 mentores especializados em mais de 300 áreas é um dos trunfos para a transposição do conhecimento para o contexto real de cada empresa.

A integração prática dos conteúdos é central: cada módulo gera documentos de trabalho, planos de ação e rotinas de gestão que os líderes podem implementar nas suas equipas. Segundo Sara Almeida, este modelo já demonstrou impacto positivo em áreas como vendas, eficiência de processos e cultura empresarial.

Os dados iniciais do programa revelam que 33% das PME participantes não usam dados para tomar decisões, o que reforça a importância de introduzir ferramentas simples de análise de métricas e comunicação digital nas rotinas diárias.

O custo oculto de não agir

Rui Nunes, fundador da SendXmail, Zopply e Hot Leads, alerta para outro fator crítico: o impacto financeiro invisível da falta de competências digitais. As perdas por ineficiência, oportunidades não aproveitadas e erros de estratégia não aparecem nos balanços, mas acumulam-se ao longo do tempo.

As empresas só percebem o custo da inação quando começam a perder quota de mercado, a faturação estagna ou os concorrentes se tornam mais ágeis.

Rui Nunes reforça a importância de um processo gradual e humanizado. A formação deve ser acompanhada de experimentação prática, onboarding e suporte para que a transição digital seja feita com confiança. Quando bem conduzido, este processo aumenta a motivação interna e o sentido de capacidade nas equipas.

Há ainda um ganho ético e operacional quando as soluções tecnológicas são construídas dentro da empresa e não ficam dependentes de fornecedores externos. Isso promove autonomia, acelera a adoção e estimula a inovação contínua.

Preparar as PME para 2030

A ambição do programa Voice Leadership é contribuir com 2% para o PIB nacional até 2026, capacitando 5.000 PME. O impacto estende-se para além da empresa — atinge clientes, fornecedores, comunidades e até futuras gerações, no caso de empresas familiares.

Segundo os especialistas, o cenário ideal para 2030 ou 2035 será aquele em que as PME portuguesas tenham incorporado a aprendizagem contínua na sua cultura e enfrentem a inovação não como uma ameaça, mas como uma alavanca de competitividade.

As empresas que não se adaptarem tenderão a desaparecer ou a tornar-se irrelevantes. O diferencial já não está no acesso a tecnologia cara, mas na capacidade de ativar conhecimento, integrar ferramentas simples e dar espaço às equipas para aplicarem o que sabem.

A liderança continua a ser o ponto de partida. Só com líderes conscientes, formados e com visão estratégica será possível gerar um verdadeiro movimento de transformação digital competente.