Treinar fora do ecrã para decidir melhor dentro das empresas

Com a inteligência artificial a acelerar a automação e a redefinir o trabalho, a Escola do Mato propõe um regresso ao terreno como forma de desenvolver competências críticas de decisão, liderança e responsabilidade, tanto na educação como nas organizações.
27 de Março, 2026

A crescente adoção de inteligência artificial nas empresas tem levado a um reforço do investimento em ferramentas digitais e formação tecnológica. No entanto, permanece um desfasamento entre estas iniciativas e o desenvolvimento de competências essenciais para a execução no terreno, como a tomada de decisão sob pressão, a coordenação em contexto real e a assunção de responsabilidade.

A Escola do Mato defende que estas competências continuam a ser treinadas de forma demasiado abstrata, afastadas de cenários reais onde as decisões têm consequências imediatas. A organização, fundada por Pedro Alves, ex- Deloitte, que conhece bem a mecânica e o dia a dia das empresas e das suas necessidades, propõe um modelo alternativo assente no contacto estruturado com o ambiente natural, encarado não como atividade recreativa, mas como um contexto prático de treino.

Segundo a abordagem apresentada, a ausência de elementos típicos dos ambientes digitais — como simulações controladas ou excesso de estímulos — expõe a qualidade das decisões e da comunicação. Ao retirar a “camada de proteção” dos contextos confortáveis, as escolhas tornam-se mais claras e as consequências mais evidentes, criando condições para um treino mais eficaz.

Em ambiente natural, os participantes enfrentam limitações concretas, como o tempo disponível, os recursos escassos, as condições meteorológicas e os próprios limites físicos. Nesse cenário, são desafiados a executar tarefas como cozinhar ao fogo, montar abrigos, organizar equipas e gerir recursos. O objetivo não é simular cenários extremos, mas desenvolver competências funcionais que possam ser transferidas para contextos escolares e empresariais.

No setor da educação, esta metodologia é apresentada como um complemento à aprendizagem formal. A premissa é que o conhecimento teórico, por si só, não garante capacidade de ação. A natureza funciona, neste contexto, como um ambiente onde observar, decidir e executar são processos indissociáveis, contribuindo para o desenvolvimento de maturidade.

Já no contexto empresarial, a proposta surge como alternativa a formatos tradicionais de “team building”, frequentemente centrados em atividades com baixo nível de exigência prática. A Escola do Mato procura diferenciar-se ao privilegiar situações onde a comunicação clara, a resolução de problemas concretos e a liderança emergente são determinantes. Nestes ambientes, a cooperação deixa de ser opcional e torna-se condição necessária para o sucesso, eliminando margens para desalinhamento artificial.

Num cenário marcado pela transformação digital contínua, a proposta assenta numa lógica pragmática. Se a tecnologia acelera a execução e aumenta o custo do erro, então a capacidade humana de decidir com clareza e responsabilidade torna-se um fator crítico. O treino destas competências, tradicionalmente menos tangíveis, passa assim a integrar o conjunto de prioridades para organizações que procuram preparar equipas para contextos cada vez mais incertos.

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