Las Vegas entra novamente no calendário internacional da tecnologia com o arranque, na próxima terça-feira 6 de janeiro, de um grande evento do setor que tradicionalmente atrai executivos, engenheiros, investigadores e fabricantes de todo o planeta. O problema é que, em 2026, muitos dos convidados internacionais já decidiram não tentar sequer chegar aos Estados Unidos.
Ao longo do último ano, em conferências realizadas na Europa e na Ásia, a conversa entre profissionais estrangeiros afastou-se repetidamente dos temas técnicos. Sempre que não se falava de inteligência artificial, cloud ou software de código aberto, o assunto acabava por ser o mesmo: a dificuldade crescente em entrar nos EUA desde o regresso de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Para muitos, a conclusão tornou-se simples e pragmática: não aceitar empregos, nem participar em eventos realizados em território norte-americano.
A ironia é particularmente visível em Las Vegas. Um evento pensado como montra global da inovação decorre num país onde mesmo participantes com vistos válidos e documentação em ordem têm sido impedidos de entrar à chegada. Profissionais de tecnologia relatam recusas na fronteira após viagens de mais de oito horas, com regresso imediato no voo seguinte, um risco que poucos estão dispostos a correr apenas para marcar presença numa conferência.
Os organizadores de feiras tecnológicas conhecem bem esta realidade. Convencer participantes de fora dos EUA a deslocarem-se ao país tornou-se um exercício cada vez mais ingrato, ao ponto de vários eventos estarem a ser cancelados ou transferidos para a Europa, Canadá ou Ásia. Las Vegas mantém-se no mapa, mas com um público internacional progressivamente mais reduzido.
No caso específico da CES, a situação é ainda mais sensível. Profissionais chineses convidados para o evento relatam taxas excecionalmente elevadas de recusas de visto, levando alguns consultores a alertar que mencionar a participação na feira num pedido de visto pode aumentar drasticamente as probabilidades de rejeição. Os próprios organizadores reconheceram o problema e apelaram publicamente às autoridades norte-americanas para acelerarem os vistos de negócios, um apelo que, até agora, não produziu efeitos visíveis.
Este clima não afeta apenas eventos empresariais. Conferências científicas realizadas nos EUA registam uma quebra na participação internacional, com investigadores a evitarem o país por receio de atrasos, detenções ou recusas de entrada. A publicação Physics Today refere que estas preocupações estão entre os principais motivos apontados por académicos estrangeiros para não participarem em encontros realizados em solo norte-americano.
O problema estende-se ao mercado de trabalho. Tecnólogos estrangeiros estão a abdicar de oportunidades profissionais de longo prazo nos EUA, num contexto em que os vistos se tornaram mais caros e mais difíceis de obter. A nova regra que impõe uma taxa anual de 100 mil dólares por pedido de visto H-1B funciona, na prática, como um forte desincentivo à contratação internacional, sobretudo para pequenas e médias empresas.
Enquanto Las Vegas se prepara para acender as luzes dos seus pavilhões, outros polos tecnológicos aproveitam o contraste. Canadá, Europa e várias regiões da Ásia promovem políticas de vistos mais previsíveis e condições favoráveis ao trabalho remoto, direcionadas precisamente aos profissionais que hoje veem os Estados Unidos como um destino incerto.
Durante décadas, os grandes eventos realizados em solo norte-americano eram o ponto de encontro natural da tecnologia global. Em 2026, a pergunta deixou de ser quem vai a Las Vegas, para passar a ser quem consegue lá chegar.
CES, Las Vegas, conferências tecnológicas, vistos de trabalho, talento internacional







