Vinte e nove eurodeputados exigem a Bruxelas um plano urgente face à ameaça da IA avançada

Uma carta assinada por parlamentares de seis grupos políticos distintos insta a Comissão Europeia a agir sem demora face à capacidade dos modelos de IA de última geração para automatizar a descoberta e a exploração de vulnerabilidades informáticas, e adverte que a Europa ficou à margem de iniciativas industriais como o projeto Glasswing da Anthropic.
11 de Maio, 2026

Um grupo de vinte e nove eurodeputados pertencentes a seis formações distintas do Parlamento Europeu enviou, na passada segunda-feira, 4 de maio, uma carta a Henna Virkkunen, vice-presidente executiva da Comissão Europeia para a Soberania Tecnológica, a Segurança e a Democracia, na qual solicitam a implementação de um plano europeu de mitigação face aos riscos cibernéticos decorrentes dos sistemas de inteligência artificial mais avançados.

A carta, liderada por Bart Groothuis (Renew Europe) e Markéta Gregorová (Verdes/ALE), descreve um cenário que classificam como um ponto de inflexão para a segurança digital do continente, sustentando que sistemas como o Claude Mythos(desenvolvido pela Anthropic) estão a transformar radicalmente o panorama dos ciberataques, ao automatizar a deteção e a exploração de falhas de segurança no software a uma velocidade e escala nunca antes vistas.

Os signatários recordam que responsáveis do setor financeiro já alertaram que o referido Mythos é um modelo de linguagem que poderia representar um risco para o sistema bancário mundial, e sublinham que foram documentados acessos não autorizados ao próprio Mythos, o que demonstra que a ameaça deixou de ser hipotética.

Os parlamentares alertam, no entanto, que o problema transcende um único produto e assinalam o surgimento de outros modelos com capacidades comparáveis, destacando alternativas de código aberto como o Kimi K2.6 que, combinadas com sistemas de agentes poderiam reduzir ainda mais a barreira técnica necessária para levar a cabo ataques sofisticados.

De acordo com o documento, os serviços públicos e as infraestruturas críticas europeias enfrentam riscos de uma magnitude e rapidez sem precedentes. Um dos pontos centrais da carta é a avaliação do projeto Glasswing, uma iniciativa promovida pela própria indústria e liderada pela Anthropic, cujo objetivo é corrigir vulnerabilidades de forma antecipada.

Os eurodeputados reconhecem que este tipo de projetos reflete a disposição das empresas de IA e de cibersegurança em assumir a sua responsabilidade, mas lamentam que nenhuma instituição ou empresa europeia tenha sido integrada no mesmo, nem as organizações encarregadas de manter a infraestrutura aberta da Internet.

No plano normativo, os signatários recordam que a diretiva NIS2 já obriga as entidades consideradas críticas a implementar arquiteturas de confiança zero (zero trust), bem como a operar sob a premissa de que uma falha pode ocorrer a qualquer momento e a manter uma postura defensiva ativa. Apesar disso, consideram que os atuais quadros de cibersegurança são insuficientes para fazer face a sistemas com o nível de capacidade da IA atual.

O texto da carta especifica várias linhas de ação que os signatários esperam ver desenvolvidas pelo Executivo comunitário, começando por que a Comissão Europeia encete conversações com a Anthropic e com outros programadores de modelos de IA de ponta para garantir a participação europeia no projeto Glasswing e em projetos semelhantes, assegurando ainda que a Agência da União Europeia para a Cibersegurança (ENISA) tenha acesso antecipado a estes modelos.

Exigem também acelerar a implementação de arquiteturas de zero trust e de ferramentas defensivas assistidas por inteligência artificial, acompanhando esta implementação com orientações concretas tanto para o setor público como para o privado.

Paralelamente, instam a reformar os quadros de divulgação e aplicação de patches de segurança para os adaptar aos prazos mais curtos impostos pela IA, o que incluiria a possibilidade de agir de forma preventiva mesmo para além das redes das próprias organizações afetadas, e propõem também reduzir imediatamente as superfícies de ataque, aprofundar a segmentação das redes e dar prioridade à proteção dos ativos mais sensíveis, o que na gíria do setor é conhecido como crown jewels.

Os eurodeputados salientam que o seu apelo não visa limitar a utilização de medidas de cibersegurança baseadas na IA no território europeu, uma vez que as consideram igualmente indispensáveis para a defesa do continente, e solicitam uma resposta prioritária por parte da Comissão que detalhe as medidas concretas a adotar.

Juntamente com Groothuis e Gregorová, subscrevem o documento parlamentares dos grupos Socialista e Democrata, Partido Popular Europeu, Conservadores e Reformistas Europeus, A Esquerda e a Renew Europe, entre os quais figura o nome de Ana Vasconcelos, eleita pela Iniciativa Liberal e que faz parte Renew Europe, é a única deputada portuguesa que assina esta carta.

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